Livros, museus, bibliotecas, poesia e música

Literatura em língua portuguesa, Literatura em geral, Livros e linguagens em geral, Gramáticas & Leis
Alguns livros clássicos, Dicionários e glossários, Enciclopédias e listas de "sites", História, História da Ciência
Museus e bibliotecas, Poesia, Música brasileira e portuguesa e Quando não encontrar...

O objetivo principal desta página é indicar livros e textos escritos (preferencialmente em português) já existentes gratuitamente na Internet, dos livros de Shakespeare às letras de músicas brasileiras, da poesia de Neruda a artigos científicos com descobertas fundamentais, da pedra de Roseta aos livros de Machado de Assis, da Enciclopédia Britânica ao Webster, dos Padres Fundadores do Cristianismo a Karl Marx, de Clarice Lispector a Vasco da Gama, etc (!) de tudo um pouco mas com alguma organização, comentários e alguns textos.

Espero com este "Sêbo Virtual" facilitar a sua busca - a Internet é o "Livro de Areia" do Borges...- mas lembre-se que os direitos dos autores fazem com que textos recentes só possam estar na Internet com a sua concordância, ou seja, muitos autores importantes tem pouca divulgação e temos que encontrar suas obras em bibliotecas ou livrarias com paredes de tijolo e cimento.

Há aqui também "links" para museus de arte, de arqueologia e de história natural e para alguns "sites" de História. "Museus" são muito variados, o nome quer dizer o "Palácio das Musas", as deusas da sabedoria. Em particular a musa da História, Clio, ganha um certo destaque nestes "links".


GRANDE SERTÃO: VEREDAS
(João Guimarães Rosa)
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser se viu; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, essa figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, carão de cão: determinaram era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucaia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniões... O sertão está em toda a parte.
Do demo? Na gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele dizem só: o Que-Diga. Vôte! não... Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita todo mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando: "Eu já vou! Eu já vou!..." que é o capiroto, o que-diga... E um Jisé Simpilício quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo, satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupeia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar... Superstição. Jisé Simpilício e Aristides, mesmo estão se engordando, de assim não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que para aqui vir normal, a cavalo, dum dia-e-meio ele era capaz que só uns vinte minutos bastava... porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe sem ofensas não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem se anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses... Então? Que-Diga? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma com as presenças!
Não seja. Eu, pessoalmente, quase que já perdi nele a crença, mercês a Deus; é o que ao senhor lhe digo, à puridade. Sei que é bem estabelecido, que grassa nos Santos-Evangelhos. Em ocasião, conversei com um rapaz seminarista, muito condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de paramenta, com uma vara de maria-preta na mão proseou que ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo vivo de uma velha, na Cachoeira-dos-Bois, ele ia com o vigário do Campo-Redondo... Me concebo. O senhor não é como eu? Não acreditei patavim. Compadre meu Quelemém descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes dão encosto. Compadre meu Quelemém é quem muito me consola Quelemém de Gois. Mas ele tem de morar longe daqui, da Jijujã, Vereda do Buriti Pardo... Arres, me deixe lá, que em endemoninhamento ou com encosto o senhor mesmo deverá de ter conhecido diversos homens, mulheres. Pois não sim? Por mim, tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangue-d’Outro, o Muitos-Beiços, o Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre... o Hermógenes... Deles, punhadão. Se eu pudesse esquecer tantos nomes... Não sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será?
De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...
Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso por estúrdio que me vejam é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças eu digo. Pois não é ditado: "menino trem do diabo"? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho...
Hem? Hem? Ah. Figuração minha, de pior pra trás, as certas lembranças. Mal haja-me! Sofro pena de contar não... Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca-doce pode de repente virar azangada motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. E que isso é? Eh, o senhor já viu, por ver, a feiúra de ódio franzido, carantonho, nas faces duma cobra cascavel? Observou o porco gordo, cada dia mais feliz bruto, capaz de, pudesse, roncar e engulir por sua suja comodidade o mundo todo? E gavião, corvo, alguns, as feições deles já representam a precisão de talhar, para adiante, rasgar e estraçalhar a bico, parece uma quicé muito afiada por ruim desejo. Tudo. Tem até tortas raças de pedras, horrorosas, venenosas que estragam mortal a água, se estão jazendo em fundo de poço; o diabo dentro delas dorme: são o demo. Se sabe? E o demo que é só assim o significado dum azougue maligno tem ordem de seguir o caminho dele, tem licença para campear?! Arre, ele está misturado em tudo.
Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos é o razoável sofrer. E a alegria de amor compadre meu Quelemém diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois e Deus, junto. Vi muitas nuvens.
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Literatura em língua portuguesa

Cecília Meireles, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto (sites da TV Cultura, com biografias, fotos e trechos de obras)
Literatura Brasileira on-line(Clique em "Busca obra digitalizada". Tem cerca de 700 livros clássicos brasileiros, de Pero Vaz de Caminha a Lima Barreto, passando por Machado de Assis, José de Alencar, Euclides da Cunha, etc. Há alguns pouquíssimos autores portugueses, como o Padre Antonio Vieira.)
Biblioteca Nacional Digital de Portugal (mais de dez mil livros clássicos portugueses).
Euclides da Cunha (página ótima da Academia Brasileira de Letras)
Machado de Assis (página ótima da Academia Brasileira de Letras)
Clarice Lispector HP(Tem dezenas de contos e mais muitas informações. A página desapareceu mas está salva pelo Web Archive.)
Manuelzão: o guia de Guimarães Rosa no Sertão.(mais uma página salva pelo Web Archives)
Monteiro Lobato(bela página biográfica e bibliográfica, mas infelizmente sem os textos)
Padre Antonio Vieira: Sermões & textos on-line(o maior orador do Século XVII e um dos maiores de todos os tempos).
Projeto Releituras(Contém mais de 1500 textos escritos por mais de 600 autores brasileiros e também apresenta 45 biografias de escritores brasileiros).
Página sobre o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha.)
Acervo digital e catálogos da Biblioteca Nacional (Brasil) (Página difícil de usar e com alguns "links" errados. Tem que fazer o "download" do "plugin" para poder ler o "objeto digital". Está escrito assim na página da nossa Biblioteca Nacional... Informatiquês em inglês e sem haspas é duro. Minha sugestão é clicar em "tipo de documento. Há só 125 livros, mas há milhares de outros documentos.)
Biblioteca Virtual de Literatura(UFRJ)
Biblioteca Virtual da Literatura
Textos e biografias dos intelectuais membros da Academia Brasileira de Letras(Clique em Pesquisar, na parte inferior da página.)
Projecto Vercial(informações e alguns textos de literatura portuguesa)
A Lingua Portuguesa
Literatura portuguesa. Contém a descrição de movimentos culturais recentes, com ênfase em Portugal. (Página salva pelo Web Archives...)
Planeta Clix(textos de literatura mundial, em língua portuguesa)
Catálogos de Literatura (29) (Parte da compilação feita pelo Ministério de C&T de Portugal sobre Recursos da Língua Portuguesa na Internet.)
Memória de Leitura (Excelente! Textos históricos e muitas informações sobre o livro no Brasil e em Portugal, inclusive com figuras de livros de Debret.)
Ligações de Ciências Sociais e Humanas (links para textos de cerca de 40 escritores de língua portuguesa)
Brazil - Brasil - BRAZZIL (simpática revista em inglês com artigos sobre cultura brasileira, com ênfase em literatura, e compilações de notícias sobre o Brasil)
Linguateca, um centro de recursos - distribuído - para o processamento computacional da língua portuguesa. (Interface da Linguística e Computação.)
Amigos do livro
Domínio Público
ROMANCE DAS PALAVRAS AÉREAS
(Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência)
"Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!

Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...

A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...
Detrás de grossas paredes,
de leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda,
sem peso de ação nem de hora...

- e estais no bico das penas,
- e estais na tinta que as molha,
- e estais nas mãos dos juizes,
- e sois o ferro que arrocha,
- e sois barco para o exílio,
- e sois Moçambique e Angola!

Ai, palavras, ai, palavras,
ídeis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,
entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto,
promessas que o mundo sopra...

Ai, palavras, ai, palavras,
mirai-vos: que sois, agora?
- Acusações, sentinelas,
bacamarte, algema, escolta;
- o olho ardente da perfídia,
a velar, na noite morta;
- a umidade dos presídios,
- a solidão pavorosa;
- duro ferro de perguntas,
com sangue em cada resposta;
- e a sentença que caminha,
- e a esperança que não volta,
- e o coração que vacila,
- e o castigo que galopa...

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!

Perdão podíeis ter sido!

- sois madeira que se corta,
sois vinte degraus de escada,
- sois um pedaço de corda...
- sois povo pelas janelas,
cortejo, bandeiras, tropa...

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!

Éreis um sopro na aragem...
- sois um homem que se enforca!

O LIVRO DE AREIA(Jorge Luis Borges, tradução de Ligia Morrone Averbuck)
... Thy rope of sands ... George Herbert (1593-1623)
A linha consta de um número infinito de pontos, o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos, o hipervolume, de um número infinito de volumes... Não, decididamente não é este, "more geometrico", o melhor modo de iniciar meu relato.
Afirmar que é verídico é, agora, uma convenção de todo relato fantástico; o meu, no entanto, é verídico.
Vivo só, num quarto andar da Rua Belgrano. Faz alguns meses, ao entardecer ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços mal conformados. Talvez minha miopia os visse assim. Todo seu aspecto era de uma pobreza decente. Estava de cinza e trazia uma valise cinza na mão. Logo senti que era estrangeiro. A princípio achei-o velho; logo percebi que seu escasso cabelo ruivo, quase branco, à maneira escandinava, me havia enganado. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas.
Apontei-lhe uma cadeira. O homem demorou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora.
- Vendo bíblias - disse.
Não sem pedantismo respondi-lhe:
- Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também a de Cipriano de Valera, a de Lutero, que literariamente é a pior, e um exemplar latino da Vulgata. Como o senhor vê, não são precisamente biblias o que me falta.
Ao fim de um silêncio respondeu:
- Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse. Eu o adquiri nos confins de Bikanir. Abriu a valise e o deixou sobre a mesa. Era um volume em oitavo, encadernado em pano. Sem dúvida, havia passado por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado me surpreendeu. Na lombada dizia Hali Writ e, abaixo, Bombay.
- Será do século dezenove - observei.
- Não sei. Não soube nunca - foi a resposta.
Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas, como uma bíblia. O texto era apertado e estava ordenado em versículos. No ângulo superior das páginas, havia cifras arábicas. Chamou-me a atenção que a página par levasse o número (digamos) 40.514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso estava numerado com outra cifra. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada à pena, como pela desajeitada mão de um menino.
Foi então que o desconhecido disse:
- Olhe-a bem. Já não a verá nunca mais.
Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz.
Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Em vão busquei a figura da âncora, folha por folha. Para ocultar meu desconcerto, disse:
- Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua indostânica, não é verdade?
- Não - replicou.
Logo baixou a voz como que para me confiar um segredo:
- Adquiri-o em uma povoação da planície, em troca de algumas rupias e da Bíblia. Seu possuidor não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra sem contaminação. Disse que seu livro se chamava o Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim.
Pediu-me que procurasse a primeira folha.
Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro.
- Agora procure o final.
Também fracassei; apenas consegui balbuciar com uma voz que não era minha:
- Isto não pode ser!
Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse:
- Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número.
Depois, como se pensasse em voz alta:
- Se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.
Suas considerações me irritaram. Perguntei:
- O senhor é religioso, sem dúvida?
- Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca de seu livro diabólico.
Assegurei-lhe que nada tinha a se recriminar e perguntei-lhe se estava de passagem por estas terras. Respondeu que dentro de alguns dias pensava em regressar à sua pátria. Foi então que soube que era escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que a Escócia eu estimava pessoalmente por amor de Stevenson e de Hume.
- E de Robbie Burns - corrigiu.
Enquanto falávamos eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei:
- O senhor se propõe a oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico?
- Não. Ofereço-o ao senhor - replicou e fixou uma soma elevada.
Respondi, com toda a verdade, que essa soma era inacessível para mim e fiquei pensando. Ao fim de poucos minutos, havia urdido meu plano.
- Proponho-lhe uma troca - disse. O senhor obteve este volume por algumas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria que acabo de cobrar, e a Bíblia de Wiclif em letras góticas. Herdei-a de meus pais.
- A black letter Wiclif! - murmurou.
Fui ao meu dormitório e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou a capa com fervor de bibliófilo.
Trato feito - disse.
Assombrou-me que não regateasse. Só depois compreenderia que havia entrado em minha casa com a decisão de vender o livro. Não contou as notas e guardou-as.
Falamos da Índia, das Orcadas e dos Jarls noruegueses que as governaram. Era noite quando o homem se foi. Não voltei a vê-lo nem sei o seu nome.
Pensei em guardar o Livro de Areia no vão que havia deixado o Wiclif, mas optei finalmente por escondê-lo atrás de uns volumes desemparelhados de As mil e uma Noites.
Deitei-me e não dormi. Às três ou quatro da manhã, acendi a luz. Procurei o livro impossível e virei suas folhas. Em uma delas vi gravada uma máscara. O ângulo levava uma cifra, já não sei qual, elevada à nona potência.
Não mostrei a ninguém meu tesouro. À ventura de possuí-lo se agregou o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Estas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me alguns amigos; deixei de vê-los. Prisioneiro do Livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada gasta e as capas e rechacei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as em uma caderneta alfabética, que não demorei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro.
O verão declinava e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade.
Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse o planeta de fumaça.
Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à mão direita do vestíbulo, uma escada curva se some no sótão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder o Livro de Areia em uma das úmidas prateleiras. Tratei de não me fixar em que altura, nem a que distância da porta.
Sinto um pouco de alívio, mas não quero nem passar pela Rua México.

Literatura em geral

Lista de "links" literários latinoamericanos("site" do LANIC, Univ.Texas)
Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes (excelente "site" de literatura em espanhol, com cerca de 5000 livros "online"))
Literatura Argentina Contemporánea
Pablo Neruda - vida e obra (excelente "site" da Universidade do Chile)
In Calvino Veritas: the critical Calvino Page
Armarium Labyrinthi: Labyrinth Latin Bookcase (links para livros em latim)
Literatura escandinava(livros em línguas escandinavas, com alguns livros em inglês.)
Netúfgaáfan Livros islandeses, com destaque para as Sagas (fundamentais na literatura européia) e para a Bíblia (se você souber ler islandês, falado por cerca de 200 mil pessoas...)
Shakespeare(toda a obra do fundador da língua inglesa)
Virtual Books online (centenas de livros em português)
TAO-TE CHING (Lao-Tse, trad. L.F.S. Coelho, a partir do texto da tradução em inglês do MIT)
O caminho que pode ser percorrido não é o permanente e imutável caminho.
O nome que pode ser nomeado não é o permanente e imutável nome.

Livros e linguagens em geral

Electronic Texts
A list of on-line books
Textes originaux en ligne(livros eletrônicos, em francês)
The i Love Languages Page (antes chamada "The Human-Languages Page")
Ethnologue: languages of the world, Internet Edition (descrição detalhada de todas as línguas do mundo - quantos as falam e onde estão - desde as faladas por algumas dezenas de pessoas às faladas por centenas de milhões)
Treasures of the Bibliotheque Nationale de France
Ancient Scripts of the World
LIVRO DO DESASSOSSEGO por Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Gramáticas, "Grammars" & Leis

Grammar and Writing Guide
Internet Resources on Citing: The Trademark of a Good Writer(A good site, pointed to me by very kind people./Um bom site, indicado para mim por pessoas muito gentis.)
English Grammar Online
English Grammar
Online Technical Writing: Online Textbook--Contents
Guide to Grammar and Writing
English Education: Grammar and Punctuation
Nossa língua portuguesa (TV-Cultura)
Gramática da Língua Portuguesa "Online"
Mini-gramática portuguesa (NILC/USP)
Sites de Literatura e Gramática (Escolha um assunto, no menu. Depois escolha um assunto no canto superior direito e clique em busca.)
Códigos e leis do Brasil
Língua portuguesa (Brasil)(cerca de 50 links de gramática organizados pela Universidade de Michigan)
POR QUE LER OS CLÁSSICOS (Ítalo Calvino, 1981)
COMECEMOS COM ALGUMAS PROPOSTAS DE DEFINIÇÃO.
1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: "Estou relendo... " e nunca "Estou lendo...".
Isso acontece pelo menos com aquelas pessoas que se consideram "grandes leitores"; não vale para a juventude, idade em que o encontro com o mundo e com os clássicos como parte do mundo vale exatamente enquanto primeiro encontro.
O prefixo reiterativo antes do verbo ler pode ser uma pequena hipocrisia por parte dos que se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso. Para tranquilizá-los, bastará observar que, por maiores que possam ser as leituras "de formação" de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que ele não leu. Quem leu tudo de Heródoto e de Tucídides levante a mão. E de Saint-Simon? E do cardeal de Retz? E também os grandes ciclos romanescos do Oitocentos são mais citados do que lidos. Na França, se começa a ler Balzac na escola, e pelo número de edições em circulação, se diria que continuam a lê-lo mesmo depois. Mas na Itália, se fosse feita uma pesquisa, temo que Balzac apareceria nos últimos lugares. Os apaixonados por Dickens na Itália constituem uma restrita elite de pessoas que, quando se encontram, logo começam a falar de episódios e personagens como se fossem de amigos comuns. Faz alguns anos, Michel Butor, lecionando nos Estados Unidos, cansado de ouvir perguntas sobre Emile Zola, que jamais lera, decidiu ler todo o ciclo dos Rougon-Macquart. Descobriu que era totalmente diverso do que pensava: uma fabulosa genealogia mitológica e cosmogônica, que descreveu num belíssimo ensaio.
Isso confirma que ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura da juventude. A juventude comunica ao ato de ler como a qualquer outra experiência um sabor e uma importância particulares; ao passo que na maturidade apreciam-se (deveriam ser apreciados) muitos detalhes, níveis e significados a mais. Podemos tentar então esta outra fórmula de definição:
2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.
De fato, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso, inexperiência da vida. Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco ou nada do livro lido na juventude. Relendo o livro na idade madura, acontece reencontrar aquelas constantes que já fazem parte de nossos mecanismos interiores e cuja origem havíamos esquecido. Existe uma força particular da obra que consegue fazer-se esquecer enquanto tal, mas que deixa sua semente. A definição que dela podemos dar então será:
3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.BR> Por isso, deveria existir um tempo na vida adulta dedicado revisitar as leituras mais importantes da juventude. Se os livros permaneceram os mesmos (mas também eles mudam, à luz de uma perspectiva histórica diferente), nós com certeza mudamos, e o encontro é um acontecimento totalmente novo. Portanto, usar o verbo ler ou o verbo reler não tem muita importância. De fato, poderíamos dizer:
4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.
5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

A definição 4 pode ser considerada corolário desta:
6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
Ao passo que a definição 5 remete para uma formulação mais explicativa, como:
7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).
Isso vale tanto para os clássicos antigos quanto para os modernos. Se leio a Odisséia, leio o texto de Homero, mas não posso esquecer tudo aquilo que as aventuras de Ulisses passaram a significar durante os séculos e não posso deixar de perguntar-me se tais significados estavam implícitos no texto ou se são incrustações, deformações ou dilatações. Lendo Kafka, não posso deixar de comprovar ou de rechaçar a legitimidade do adjetivo kafkiano, que costumamos ouvir a cada quinze minutos, aplicado dentro e fora de contexto. Se leio Pais e filhos de Turgueniev ou Os possuídos de Dostoievski não posso deixar de pensar em como essas personagens continuaram a reencarnar-se até nossos dias.
A leitura de um clássico deve oferecer-nos alguma surpresa em relação à imagem que dele tínhamos. Por isso, nunca será demais recomendar a leitura direta dos textos originais, evitando o mais possível bibliografia crítica, comentários, interpretações. A escola e a universidade deveriam servir para fazer entender que nenhum livro que fala de outro livro diz mais sobre o livro em questão; mas fazem de tudo para que se acredite no contrário. Existe uma inversão de valores muito difundida segundo a qual a introdução, o instrumental crítico, a bibliografia são usados como cortina de fumaça para esconder aquilo que o texto tem a dizer e que só pode dizer se o deixarmos falar sem intermediários que pretendam saber mais do que ele. Podemos concluir que:
8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.
O clássico não necessariamente nos ensina algo que não sabíamos; às vezes descobrimos nele algo que sempre soubéramos (ou acreditávamos saber) mas desconhecíamos que ele o dissera primeiro (ou que de algum modo se liga a ele de maneira particular). E mesmo esta é uma surpresa que dá muita satisfação, como sempre dá a descoberta de uma origem, de uma relação, de uma pertinência. De tudo isso poderíamos derivar uma definição do tipo:
9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.
Naturalmente isso ocorre quando um clássico "funciona" como tal, isto é, estabelece uma relação pessoal com quem o lê. Se a centelha não se dá, nada feito: os clássicos não são lidos por dever ou por respeito mas só por amor. Exceto na escola: a escola deve fazer com que você conheça bem ou mal um certo número de clássicos dentre os quais (ou em relação aos quais) você poderá depois reconhecer os "seus" clássicos. A escola é obrigada a dar-lhe instrumentos para efetuar uma opção: mas as escolhas que contam são aquelas que ocorrem fora e depois de cada escola.
É só nas leituras desinteressadas que pode acontecer deparar-se com aquele que se torna o "seu" livro. Conheço um excelente historiador da arte, homem de inúmeras leituras e que, dentre todos os livros, concentrou sua preferência mais profunda no Documentos de Pickwick e a propósito de tudo cita passagens provocantes do livro de Dickens e associa cada fato da vida com episódios pickwickianos. Pouco a pouco ele próprio, o universo, a verdadeira filosofia tomaram a forma do Documento de Pickwick numa identificação absoluta. Por esta via, chegamos a uma idéia de clássico muito elevada e exigente:
10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.
Com esta definição nos aproximamos da idéia de livro total, como sonhava Mallarmé. Mas um clássico pode estabelecer uma relação igualmente forte de oposição, de antítese. Tudo aquilo que Jean Jacques Rousseau pensa e faz me agrada, mas tudo me inspira um irresistível desejo de contradizê-lo, de criticá-lo, de brigar com ele. Aí pesa a sua antipatia particular num plano temperamental, mas por isso seria melhor que o deixasse de lado; contudo não posso deixar de incluí-lo entre os meus autores. Direi portanto:
11. O "seu" clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.
Creio não ter necessidade de justificar-me se uso o termo clássico sem fazer distinções de antiguidade, de estilo, de autoridade. (Para a história de todas essas acepções do termo, consulte-se o exaustivo verbete "Clássico" de Franco Fortini na Enciclopédia Einaudi, vol. III). Aquilo que distingue o clássico no discurso que estou fazendo talvez seja só um efeito de ressonância que vale tanto para uma obra antiga quanto para uma moderna mas já com um lugar próprio numa continuidade cultural. Poderíamos dizer:
12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.
A esta altura, não posso mais adiar o problema decisivo de como relacionar a leitura dos clássicos com todas as outras leituras que não sejam clássicas. Problema que se articula com perguntas como: "Por que ler os clássicos em vez de concentrar-nos em leituras que nos façam entender mais a fundo o nosso tempo?" e "Onde encontrar o tempo e a comodidade da mente para ler clássicos, esmagados que somos pela avalanche de papel impresso da atualidade?".
É claro que se pode formular a hipótese de uma pessoa feliz que dedique o "tempo-leitura" de seus dias exclusivamente a ler Lucrécio, Luciano, Montaigne, Erasmo, Quevedo, Marlowe, o Discours de la méthode, Wilhelm Meister, Coleridge, Ruskin, Proust e Valéry, com algumas divagações para Murasaki ou para as sagas islandesas. Tudo isso sem ter de fazer resenhas do último livro lançado nem publicações para o concurso de cátedra e nem trabalhos editoriais sob contrato com prazos impossíveis. Essa pessoa bem-aventurada, para manter sua dieta sem nenhuma contaminação, deveria abster-se de ler os jornais, não se deixar tentar nunca pelo último romance nem pela última pesquisa sociológica. Seria preciso verificar quanto um rigor semelhante poderia ser justo e profícuo. O dia de hoje pode ser banal e mortificante, mas é sempre um ponto em que nos situamos para olhar para a frente ou para trás. Para poder ler os clássicos, temos de definir "de onde" eles estão sendo lidos, caso contrário tanto o livro quanto o leitor se perdem numa nuvem atemporal. Assim, o rendimento máximo da leitura dos clássicos advém para aquele que sabe alterná-la com a leitura de atualidades numa sábia dosagem. E isso não presume necessariamente uma equilibrada calma interior: pode ser também o fruto de um nervosismo impaciente, de uma insatisfação trepidante.
Talvez o ideal fosse captar a atualidade como o rumor do lado de fora da janela, que nos adverte dos engarrafamentos do trânsito e das mudanças do tempo, enquanto acompanhamos o discurso dos clássicos, que soa claro e articulado no interior da casa. Mas já é suficiente que a maioria perceba a presença dos clássicos como um reboar distante, fora do espaço invadido pelas atualidades como pela televisão a todo volume. Acrescentemos então:
13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.
14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.

Resta o fato de que ler os clássicos parece estar em contradição com nosso ritmo de vida, que não conhece os tempos longos, o respiro do otium humanista; e também em contradição com o ecletismo da nossa cultura, que jamais saberia redigir um catálogo do classicismo que nos interessa.
Eram as condições que se realizavam plenamente para Leopardi, dada a sua vida no solar paterno, o culto da antiguidade grega e latina e a formidável biblioteca doada pelo pai Monaldo, incluindo a literatura italiana completa, mais a francesa, com exclusão dos romances e em geral das novidades editoriais, relegadas no máximo a um papel secundário, para conforto da irmã ("o teu Stendhal", escrevia a Paolina). Mesmo suas enormes curiosidades científicas e históricas, Giacomo as satisfazia com textos que não eram nunca demasiado up-to-date: os costumes dos pássaros de Buffon, as múmias de Federico Ruysch em Fontenelle, a viagem de Colombo em Robertson.
Hoje, uma educação clássica como a do jovem Leopardi é impensável, e sobretudo a biblioteca do conde Monaldo explodiu. Os velhos títulos foram dizimados, mas os novos se multiplicaram, proliferando em todas as literaturas e culturas modernas. Só nos resta inventar para cada um de nós uma biblioteca ideal de nossos clássicos; e diria que ela deveria incluir uma metade de livros que já lemos e que contaram para nós, e outra de livros que pretendemos ler e pressupomos possam vir a contar. Separando uma seção a ser preenchida pelas surpresas, as descobertas ocasionais.
Verifico que Leopardi é o único nome da literatura italiana que citei. Efeito da explosão da biblioteca. Agora deveria reescrever todo o artigo, deixando bem claro que os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos e por isso os italianos são indispensáveis justamente para serem confrontados com os estrangeiros, e os estrangeiros são indispensáveis exatamente para serem confrontados com os italianos.
Depois deveria reescrevê-lo ainda uma vez para que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque "servem" para qualquer coisa. A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos.
E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, citarei Cioran (não um clássico, pelo menos por enquanto, mas um pensador contemporâneo que só agora começa a ser traduzido na Itália): "Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. "Para que lhe servirá?", perguntaram-lhe. 'Para aprender esta ária antes de morrer.'"

Alguns livros clássicos

The Internet Classics Archive(site do MIT com o texto de muitos - 441 ! - livros clássicos gregos e romanos)
Athena: literature, books, lists, ...
E-Textes - Quelques archives générales
Fonti letterarie(excelente compilação italiana de "sites" de livros "online", com ênfase nos clássicos)
The Latin Library
Quelques traductions françaises(o texto em francês de muitos livros clássicos gregos e romanos)
Gallica(80 mil livros disponíveis, dos séculos XV ao XIX, em francês)
A Bíblia(em português)
O Alcorão
The Internet Sacred Text Archive {Centenas de textos originais de dezenas de religiões, assim como textos conexos. Os textos estão em inglês.)
As três experiências (Clarice Lispector)
Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. "O amar os outros" é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida . Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o vôo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Dicionários e glossários

Merriam-Webster Dictionary
One-look Dictionary (2,9 milhões de palavras da língua inglesa em mais de 700 dicionários)
More dictionaries from One-look(dicionários multi-linguísticos, etc)
A Web of On-line Dictionaries(dicionários de mais de 200 línguas)
List of Dictionaries
English dictionary
American and French Research on the Treasury of the French Language (ARTFL): ROGET'S Thesaurus Search Form
Dicionário da Língua Portuguesa Online, com quase cem mil palavras, dá o significado, em português de Portugal de uma palavra em português.
Dicionários online
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa(organizado pela Academia Brasileira de Letras.)
Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora
Moderno Dicionário da Língua Portuguesa
Online English to Portuguese to English Dictionary
Travlang Portuguese-English Dictionary
The Internet Movie Database (more than 150,000 movies)
Glossário de moda francês-português
Glossário do Petróleo
Glossário de Vinhos dr Portugal —Definição de termos vinicôlas
Glossário de palavras e expressões hebraicas
Latim-Português (é gratuito mas exige cadastro)
Pequeno Glossário de Religião da Mesopotàmia
A CHACINA (Mário Palmério)

Acostumado a levantar-se cedo e ir logo ao Forum, Seu Juca Meirinho ali chegou pouco antes das sete da manhã, malgrado o frio e a ausência do Juiz de Direito.
Sabia da reunião marcada para as oito horas entregara, na véspera, por ordem do Dr. Damasceno, a chave da porta de entrada do sobrado ao Sargento-Ordenança e desejava, agora, pôr-se à disposição do delegado militar. Abriria o café do vão da escada e, vez ou outra, acharia desculpa para ir até o andar de cima, conforme recomendara o doutor, a fim de verificar se não tentavam fuçar pelo quartinho fechado, cheio de roupas e outras coisas particulares, além de tanto livro e papelada.
A porta estava aberta, de sentinela embalada. Mais velho que o sobrado era o Juca Meirinho varredor e cafeteiro no antigo Forum, e já rapazote e já taludo, quando da construção e instalação do novo o prédio acabou como por ser casa, coisa sua, e o oficial de justiça foi entrando, distraído, pensando no café do Capitão e das outras pessoas por chegar.
Alto! o cavalariano atravessou-lhe o passo.
Assustado com o berro, a feia catadura e a declarada má-inclinação da sentinela a fera estava armada de máuser, sabre e mosquetão, as cartucheiras pesadas de tanta bala mal pôde o Juca Meirinho gaguejar:
Mas eu sou o oficial de justiça... O doutor... O Doutor Juiz de Direito...
Aqui não tem juiz de direito nenhum! O Forum ’tá requisitado. Se arretire!
O jeito era afastar-se, como ordenava o soldado, e foi o que fez o Juca, sem abrir mais a boca, cruzando a Praça e indo postar-se na esquina da confeitaria. Quando aparecesse o Capitão reclamasse o café, que viessem ali chamá-lo... E, se o homem azedasse, paciência!: o volantezinho malcriado da porta do Forum, então, que ouvisse...
Erguia-se a manhã, ainda fria e nevoenta, e principiava a encher-se o Largo das Mercês. Abriam-se as portas da Confeitaria do Cucute, as das lojas e outras casas de negócio abriam-se as janelas dos sobrados que davam para a Praça. Iam e vinham as normalistas descia dos altos o povo do comércio, subiam os que voltavam do Mercado.
Encostava-se ao ponto o primeiro carro-de-praça, quando o relógio da Matriz deu as sete horas, e começou a apitar a serraria-carpintaria do Seu Costinha da Força-de-Luz, lá no Alto da Estação.
Mais um dia! pensava o Juca Meirinho, de pé na esquina, curtindo a mágoa causada pelos gritos da sentinela. Felizmente, porém, o Governo já havia mandado chamar, com urgência, o doutor... Seu Polinésio da Estação falara, muito em segredo, na véspera, depois que partira o Dr. Damasceno, sobre um telegrama do Dr. Tancredinho para o pai, o Coronel Americão: as coisas, na Capital, corriam bem, pois o rapaz se declarava muito satisfeito... Decerto a viagem o Dr. Damasceno Soares era para fecharem, por lá, algum acordo, acertarem tudo com o Coronel Americão, mandarem embora o Capitão Eucaristo e a soldadesca dele...
Sim concordava com Seu Polinésio da Estação o Juca Meirinho o Dr. Damasceno, pessoa tão religiosa, não podia estar apoiando, no íntimo, as barbaridades da Captura: o Dr. Jojoca, coitado criatura tão alegre, um mão-aberta, brincalhão... O inofensivo do Quincota, esse, o mal dele era somente aquela mania de futricar, meter a colherzinha-torta onde não devia... Que limpassem a cidade do banditismo, que se pusesse um freio aos abusos do Coronel Americão Barbosa... havia mesmo necessidade de um pouco mais de energia por parte do Governo...; mas sem tanta malvadeza e violência! Prenderem o Clodulfo era merecido: culpado de tudo, o alma-negra de Santana do Boqueirão, o espírito-mau que atuava na sombra... Sim. Precisavam de acabar com tanto crime, tanta jagunçada: não passava uma semana sem nova façanha da quadrilha do Cludolfo: a última Santana do Boqueirão inteirinha já sabia dela a história do José de Arimatéia em Campanário...
Passou pela esquina o Xico das Moças murchozinho, as mãos cruzadas nas costas, olhando pro chão, parecia até que falando sozinho. Oito filhas-mulheres, o azarado! E todas solteiras ainda... Decerto nem dormir ele não podia mais, com o fechamento da Lotérica... Viver, agora, de que, o pobre do Seu Xico? Sustentar de que maneira a mulherada em casa, se a única ocupação que sabia ele desempenhar era vender bilhete e encher talão de bicho? Deus havia de ajudar porém suspirou o Juca Meirinho. O Dr. Damasceno acharia jeito de normalizar, na Capital, a ruim situação, deixar, pelo menos, aberto o jogo... Ali estava ele sim, ele também, Seu Juca Meirinho do Forum com um rombo danado na feriazinha... Brincando, brincando, eram lá os seus oitenta, os seus cem-mil-réis o que rendia, em comissão, e todo mês, o talãozinho dos advogados e do pessoal aos cartórios justo o que pagava do aluguel de casa.
Os primeiros a chegar passava pouco das sete-e-meia foram o Capitão Eucaristo Rosa e o Sargento Hermenegildo. De passo descansado atravessaram pelo meio do Largo sem se deterem na esquina ou na confeitaria e entraram logo no Forum.
A notícia da reunião correra pela cidade, e começava a juntar mais gente na Praça, nas portas das casas de comércio, nas janelas. Próximos do Forum, na calçada, a porção de cavalarianos do Destacamento de Capturas, armados e municiados fartamente se via pelas cartucheiras estufadas, pendentes dos cinturões.
Demonstração de força era o comentário geral. Maneira d’o Capitão Eucaristo obrigar o Coronel Americão a ceder a tudo, sujeitar-se por completo às imposições, entregar à Captura os jagunços que faltavam. Todos já estavam a par das boas notícias mandadas ao pai pelo Dr. Tancredinho, e do telegrama, também, chamando o Juiz de Direito. Não demoraria a ordem para que a Captura se retirasse de Santana do Boqueirão. E o Capitão Eucaristo aproveitava o pouco tempo que lhe restava: iria embora, iria, mas depois de dobrar a arrogância do Coronel Americão, deixar o chefão de Santana humilhado, desmoralizado por completo...
Cederia o Coronel? Afinaria frente ao aparato da Captura e às ameaças do Capitão? perguntavam, a si mesmos e uns aos outros, os santanhenses reunidos no Largo das Mercês, parados de curiosidade e expectativa.
Não eram ainda as oito horas quando apontaram na esquina do alto da Praça certamente que vindos da casa do Coronel Américo Barbosa, concentrados ali, primeiramente os chefes do Diretório convocados pelo Capitão Eucaristo Rosa. Quase todos, ausente do grupo apenas Seu Valério Garcia, o Delegado Municipal. Na frente, os principais: o Coronel Americão e o Coronel Calixtrato, este de bengala e chapéu-panamá, emproadão e pedante como sempre. Atrás, os outros três: o Major Hipólito, Seu Josué Malaquias e o Coronel Ludgero Alves.
Desciam o Largo pela calçada da Força-e-Luz, atravessavam-no junto ao ponto dos carros-de-praça, passaram pelos soldados espalhados nas imediações do Forum. Entraram no sobrado como se em um daqueles dias de eleição, na hora de encerrá-la, lavrarem as atas e combinarem o foguetório, a passeata... alguém se lembrou. Sim, apenas os chefes do Diretório do Coronel Américo Barbosa podiam, nessas ocasiões, entrar no edifício guardado pelos jagunços de carabina: a oposição que esperasse do lado de fora, se estrebuchando de raiva, ciente já do resultado...
À porta do sobrado, a sentinela; dentro, no saguão dos cartórios e ao pé da escada, outro volante um cabo, embalado também. Ninguém mais.
Podem subir... o Cabo Zeca Branco disse. O Capitão já ’tá esperando lá em cima.
Subiram os dois lances da escadaria. No topo, à porta do salão de júri, o Sargento Hermenegildo:
Os senhores entrem... Vou avisar o Capitão Comandante... Mas, ’tá faltando um...
Seu Valério Garcia já deve de ’tar chegando o coronel Americão disse. Mandou me avisar que vinha direto pr’aqui... Ele mora logo em frente, na esquina da igreja...
Os cinco assentaram-se em torno da mesinha onde o Juiz de Direito costumava presidir às audiências e ouvir as testemunhas. O Sargento apressou-se em vir avisar o Capitão da chegada do coronel e companheiros. O Delegado Especial Militar estava no gabinete reservado, do Doutor Juiz de Direito o Sargento Hermenegildo explicara, antes de deixar o salão.
Demorou-se, porém, muito pouco, voltando com a ordem do Capitão Eucaristo:
O Capitão Comandante quer falar primeiro com o Coronel Américo Barbosa... Em particular...
Vazio o corredor, apenas mais outra sentinela um praçazinho miúdo, preto tal qual o Sargento Hermenegildo , essa colocada junto à porta fechada do gabinete do Juiz o Coronel Américo Barbosa observou, enquanto caminhava seguido do Ordenança. O soldadinho entreabriu a porta, esperou que o coronel entrasse, espremido, por ela, e fechou-a novamente. O Sargento voltou ao salão de júri.
Correram alguns minutos. A sentinela foi então quem veio chamar:
É para ir também o Coronel Calixtrato.
Me acompanhe! ríspido, feio, o Sargento Hermenegildo ordenou.
Lá se foi também, chapéu-panamá e bengalão nas mãos, escoltado pelo Ordenança, o Coronel Calixtrato Barbosa. A sentinela abriu-lhe meia porta repetiu a cerimônia e o Agente Executivo de Santana do Boqueirão entrou na saleta do fundo do corredor.
Nesse meio-tempo, o Coronel Ludgero Alves, incomodado com a demora do Valério Garcia já havia dado as oito horas o relógio da Matriz levantara-se e fora até a uma das janelas do sobrado para olhar o Largo. Espiou, primeiro, para o relógio cinco minutos já de atraso! e avistou, em seguida, o Valério que cruzara o jardim, apressado, pelos lados do coreto
O Coronel Ludugero! chamou, alto, da porta do salão, o Sargento Hermenegildo, depois de receber outro recado da sentinela. Me acompanhe!
Tratados que nem menino de escola!... mal se continha, remoendo o ódio, o velho Coronel Ludugero Alves. Fazendo chamada, o atrevidaço do Capitão, e por um crioulão boçal daqueles...
Mas deixou a janela e acompanhou o Ordenança pelo corredor. Chegados à porta fechada do gabinete do Juiz de Direito, a sentinela levou a mão à maçaneta.
Foi quando o Coronel Ludgero Alves viu então: debaixo da porta, infiltrando-se pela fresta rente ao assoalho, a coisa começava a escorrer sobre as tábuas larga e grossa, e vermelha bicazinha... Sangue! o velho, de instantâneo, tudo percebeu: o Americão, o Calixtrato!... Num arranco inesperado para trás, conseguiu esgueirar-se por entre o sargento e a sentinela, e tropegar rumo à escadaria:
’tão matando a gente! ’tão matando! o Coronel Ludgero disparou a gritar que nem um alucinado.
Mas não conseguiu alcançar nem o fim do primeiro lance da escada, lento de pernas, idoso demais para vencer os degraus estreitos e quase a pique. Alcançado pela linda pontaria do Sargento Hermenegildo, caiu por ali mesmo, picado pela rajada seca dos terríveis tiros curtos, de aço, de pistola-máuser.
Logo ao primeiro grito do Coronel Ludgero Alves, muitas portas, até então fechadas, se escancararam, ali por dentro do casarão do Forum. Do gabinete reservado, onde haviam sido massacrados os coronéis Americão e Calixtrato, saíram três cavalarianos, mascarados de sangue, machadinha em punho um deles o Cabo Salvador, o que, trepado na cadeira colocada atrás da porta, fora incumbido de golpear, em primeiro e na cabeça, à medida que entravam os condenados ao abate, conduzidos um por um pelo Sargento Hermenegildo. O Capitão Eucaristo Rosa, esse rompeu, carabina engatilhada, do banheiro pegado ao quarto de dormir do Juiz de Direito, na outra ponta do corredor. Da saleta dos advogados, vizinha ao salão do júri, do cômodo ao lado da escadaria depósito da papelada velha dos cartórios das sentinas do andar de baixo, do café de Seu Juca Meirinho... de todos os cantos e desvãos saltaram os volantes da Captura, açulados mais ainda pelos tiros da pistola do Ordenança.
Encantoados no salão, restava ao Major Hipólito e ao Josué Malaquias apenas a janela aberta pelo Coronel Ludgero, na hora em que fora ele olhar as horas e a Praça, preocupado com o atraso de Seu Valério. Para ela arremeteram-se os dois.
Das sacadas dos outros sobrados da Praça, das esquinas e calçadas, viram-nos tentar a escapada... a desesperada proeza de quererem galgar o peitoril, montá-lo, atirarem-se janela abaixo. Os pobres: velhos, encarangados de juntas... Muita gente assistiu aos dois como que a lutar um com o outro, se atrapalharem, se espremerem... enquanto, de dentro do sobradão, recomeçavam os tiros, rápidos, repetidos. Sim, venceram o parapeito da janela, galgaram-no sim, o Josué Malaquias e o Major Hipólito: transpuseram-no, precipitaram-se daquela altura... mas alçados e empurrados, depois de fuzilados pelas costas, arrojados fora pelos soldados lá de cima, para virem espatifar-se na calçada de pedras do Largo das Mercês.
Seu Valério Garcia tudo presenciou, parado no meio do Largo, estupidificado, como que estuporado da cabeça aos pés. Somente se mexeu para cair, derrubado por um balaço vindo dos altos do Forum um coice de burro, de veloz, certeiro e rijo que o atingiu na boca do estômago, quase que no centro exato da cintura.
Ocupar toda a praça fronteira ao Forum, guarnecer os cantos do jardim, as esquinas do Largo, evacuar, limpar completamente as imediações do Forum, isso foi obra de instantes para o treinado e ágil Segundo Destacamento do Capitão Eucaristo Rosa.
Quando o oficial desceu o degrau de entrada do sobrado, acompanhado do Sargento Hermenegildo, muitos santanhenses lograram vê-lo, uns através de frestas de janelas, outros por debaixo das mesas ou amoitados atrás do balcão da Confeitaria do Cucute. E ouvi-lo berrar para alguns volantes da Captura que se abeiravam dos corpos estendidos no paralelepípedo e lajes da calçada:
Se afastem! Entrem em forma! Os parentes que tomem conta!
Muitos, muitos anos depois, e Seu Valério Garcia ainda contava, para quem quisesse ouvir, como escapara à chacina de catorze de maio, em Santana do Boqueirão:
Foi Seu Genésio, atacadista de pinga e rapadura, quem me segurou em casa, desde manhã cedo, fecha-não-fecha a compra da safra do Pinhém daquele ano. Se aproveitava, o velhaco, da minha pressa, mo’de a reunião... Me atrasou, acabou levando um vantajão no negócio, mas me salvou a vida, o Seu Genésio...
E também mostrava, para quem quisesse ver, o relógio de algibeira um patacão de ouro, pateque, redondão e grosso com a bala de carabina, de chumbo, encravada bem no centro:
Parece até milagre, mas o soldado chegou a me enfiar o pé por debaixo do pescoço... Eu ’tava de bruço’, e ele ia começando a me desvirar, no chão, a ponta de bota... Na horinha em que o Capitão Eucaristo gritou aquela abençoada ordem!

(Chapadão do Bugre, Capítulo 40, 1965.)

Enciclopédias e listas de "sites"

Wikipédia (português)(mais de quinhentos mil artigos)
Wikipedia (inglês)(mais de três milhões de artigos)
Enciclopédia Britânica (algumas informações e sugestões dos melhores "sites" da Web)
BUBL LINK (Site inglês, bastante extenso)
INTUTE(compilação de sites para estudo e pesquisa organizada por grupo de universidades britânicas).
Librarians' Index to the Internet Links para "sites" em todas as áreas acadêmicas.
WWW Virtual Library Uma enciclopédia virtual, feita por centenas de voluntários, a "World Wide Web Virtual Library" fornece links para páginas em todas as áreas acadêmicas, cada área tendo uma página sob a responsabilidade de um especialista.
Internet Public Library Newspapers(Jornais do mundo todo)
Provérbios y Cantares
(Antonio Machado)
XLIV
Tudo passa e tudo fica,
mas o nosso é passar.
passar fazendo caminhos,
caminhos por sobre o mar.

XXIX
Caminhante, são tuas passadas
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar.

Ao andar se faz o caminho,
e ao voltar a vista para traz,
se vê o atalho que nunca mais
se há de voltar a pisar.

Caminhante, não há caminho,
senão as esteiras no mar.

Museus e Bibliotecas:

The World Wide Web Virtual Library: Museums
Musee-Museum
British Museum
The European Library
The Smithsonian Institution: Museum of Natural History
Louvre
The Natural History Museum (Londres)
Bem vindo ao WebMuseum!
Library of Congress Home Page(Visite o livro on-line sobre o Brasil, que é um dos 100 livros de Country Studies!)
The British Library
Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (Padre Antonio Vieira)

(Sermão pregado na Igreja de Nossa Senhora d'Ajuda da cidade da Bahia, no ano de 1640, com SS. Sacramento Exposto)

Exurge quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis, oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos propter nomen tuum. (Salmo XLIII)

I

Com estas palavras piedosamente resolutas, mais protestando, que orando, dá fim o Profeta Rei ao Salmo quarenta e três. Salmo, que desde o princípio até o fim, não parece senão cortado para os tempos e ocasião presente. O Doutor Máximo S. Jerônimo, e depois dele os outros expositores, dizem que se entende à letra de qualquer reino ou província católica, destruída e assolada por inimigos da Fé. Mas entre todos os reinos do Mundo a nenhum lhe quadra melhor que ao nosso Reino de Portugal; e entre todas as províncias de Portugal a nenhuma vem mais ao justo que à miserável província do Brasil. Vamos lendo todo o Salmo, e em todas as cláusulas dele veremos retratadas as da nossa fortuna: o que fomos e o que somos.

Deus, auribus nostris audivimus, Patres nostri annuntiaverunt nobis, opus, quod operatus es in diebus eorum, et in diebus antiquis. Ouvimos (começa o profeta) a nossos pais, lemos nas nossas histórias e ainda os mais velhos viram, em parte, com seus olhos as obras maravilhosas, as proezas, as vitórias, as conquistas, que por meio dos portugueses obrou em tempos passados vossa onipotência, Senhor. Manus tua gentes disperdit, et plantasti eos; afflixisti populos et expulisti eos. Vossa mão foi a que venceu e sujeitou tantas nações bárbaras, belicosas e indômitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras para nelas os plantar, como plantou com tão bem fundadas raízes; e para nelas os dilatar, como dilatou e estendeu em todas as partes do Mundo, na África, na Ásia, na América. Nec enim in gladio suo possederunt terram, et brachium eorum non salvavit eos, sed dextera tua et brachium tuum et illuminatio vultus tui, quoniam complacuisti in eis. Porque não foi a força do seu braço, nem a da sua espada a que lhes sujeitou as terras que possuíram e as gentes e reis que avassalaram, senão a virtude de vossa destra onipotente e a luz e o prêmio supremo de vosso beneplácito, com que neles vos agradastes e deles vos servistes. Até aqui a relação ou memória das felicidades passadas, com que passa o Profeta aos tempos e desgraças presentes.

Nunc autem repulisti et confundisti nos; et non egredieris Deus in virtutibus nostris. Porém agora, Senhor, vemos tudo isso tão trocado, que já parece que nos deixastes de todo e nos lançastes de vós, porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneais como dantes os nossos exércitos. Avertisti nos retrorsum post inimicos nostros, et qui oderunt nos, diripiebant sibi. Os que tão costumados éramos a vencer e triunfar, não por fracos, mas por castigados, fazeis que voltemos as costas a nossos inimigos (que como são açoite de vossa justiça, justo é que lhes demos as costas), e perdidos os que antigamente foram despojos do nosso valor, são agora roubo da sua cobiça. Dedisti nos tanquam oves escarum et in gentibus dispersisti nos. Os velhos, as mulheres, os meninos, que não têm forças nem armas com que se defender, morrem como ovelhas inocentes às mãos da crueldade herética, e os que podem escapar à morte, desterrando-se a terras estranhas, perdem a casa e a pátria. Posuisti nos opprobrium vicinis nostris, subsannationem et derisum his, qui sunt in circuitu nostro. Não fora tanto para sentir, se, perdidas fazendas e vidas, se salvara ao menos a honra; mas também esta a passos contados se vai perdendo; e aquele nome português, tão celebrado nos anais da fama, já o herege insolente com as vitórias o afronta, e o gentio de que estamos cercados, e que tanto o venerava e temia, já o despreza.

Com tanta propriedade como isto descreve Davi neste Salmo nossas desgraças, contrapondo o que somos hoje ao que fomos enquanto Deus queria, para que na experiência presente cresça a dor por oposição com a memória do passado. Ocorre aqui ao pensamento o que não é lícito sair à língua, e não falta quem discorra tacitamente, que a causa desta diferença tão notável foi a mudança da monarquia. Não havia de ser assim (dizem) se vivera um D. Manuel, um D. João o Terceiro, ou a fatalidade de um Sebastião não sepultara com ele os reis portugueses. Mas o mesmo Profeta no mesmo Salmo nos dá o desengano desta falsa imaginação: Tu es ipse rex meus et Deus meus: qui mandas salutes Jacob. O Reino de Portugal, como o mesmo Deus nos declarou na sua fundação, é reino seu e não nosso: Volo enim in te et in semine tuo imperium mihi stabilire, e como Deus é o rei: Tu es ipse rex meus et Deus meus; e este rei é o que manda e o que governa: Qui mandas salutes Jacob, ele que não se muda é o que causa estas diferenças, e não os reis que se mudaram. À vista, pois, desta verdade certa e sem engano, esteve um pouco suspenso o nosso Profeta na consideração de tantas calamidades, até que para remédio delas o mesmo Deus, que o alumiava, lhe inspirou um conselho altíssimo, nas palavras que tomei por tema:

Exurge, quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis, oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos propter nomen tuum. Não prega Davi ao povo, não o exorta ou repreende, não faz contra ele invectivas, posto que bem merecidas; mas todo arrebatado de um novo e extraordinário espírito, se volta não só a Deus, mas piedosamente atrevido contra ele. Assim como Marta disse a Cristo: Domine, non est tibi curae? assim estranha Davi reverentemente a Deus, e quase o acusa de descuidado. Queixa-se das desatenções de sua misericórdia e providência, que isso é considerar a Deus dormindo: Exurge! Quare obdormis, Domine? Repete-lhe que acorde e que não deixe chegar os danos ao fim, permissão indigna de sua piedade: Exurge, et ne repellas in finem. Pede-lhe a razão por que aparta de nós os olhos e não volta o rosto: Quare faciem tuam avertis?, e por que se esquece da nossa miséria e não faz caso de nossos trabalhos: Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? E não só pede de qualquer modo esta razão do que Deus faz e permite, senão que insta a que lha dê, uma e outra vez: Quare obdormis? Quare oblivisceris? Finalmente, depois destas perguntas, a que supõe que não tem Deus resposta, e destes argumentos com que presume o tem convencido, protesta diante do tribunal de sua justiça e piedade, que tem obrigação de nos acudir, de nos ajudar e de nos libertar logo: Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos. E para mais obrigar ao mesmo Senhor, não protesta por nosso bem e remédio, senão por parte da sua honra e glória: Propter nomen tuum.

Esta é, Todo-Poderoso e Todo-Misericordioso Deus, esta é a traça de que usou para render vossa piedade, quem tanto se conformava com vosso coração. E desta usarei eu também hoje, pois o estado em que nos vemos, mais é o mesmo que semelhante. Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens; mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. É este o último de quinze dias contínuos, em que todas as igrejas desta Metrópole, a esse mesmo trono de vossa patente Majestade, têm representado suas deprecações; e, pois, o dia é o último, justo será que nele se acuda tão bem ao último e único remédio. Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e, pois, eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-vos a vós. Tão presumido venho da vossa misericórdia, Deus meu, que ainda que nós somos os pecadores, vós haveis de ser o arrependido.

O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis: Adjuva nos, et redime nos. Mui conformes são estas petições ambas ao lugar e ao tempo. Em tempo que tão oprimidos e tão cativos estamos, que devemos pedir com maior necessidade, senão que nos liberteis: Redime nos? E na casa da Senhora da Ajuda, que devemos esperar com maior confiança, senão que nos ajudeis: Adjuva nos? Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando; pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor, senão justiça. Se a causa fora só nossa e eu viera a rogar só por nosso remédio, pedira favor e misericórdia. Mas como a causa, Senhor, é mais vossa que nossa, e como venho a requerer por parte de vossa honra e glória, e pelo crédito de vosso nome - Propter nomen tuum - razão é que peça só razão, justo é que peça só justiça. Sobre este pressuposto vos hei de argüir, vos hei de argumentar; e confio tanto da vossa razão e da vossa benignidade, que também vos hei de convencer. Se chegar a me queixar de vós e a acusar as dilatações de vossa justiça, ou as desatenções de vossa misericórdia: Quare obdormis? Quare oblivisceris? não será esta vez a primeira em que sofrestes semelhantes excessos a quem advoga por vossa causa. As custas de toda a demanda também vós, Senhor, as haveis de pagar, porque me há de dar vossa mesma graça as razões com que vos hei de argüir, a eficácia com que vos hei de apertar e todas as armas com que vos hei de render. E se para isto não bastam os merecimentos da causa, suprirão os da Virgem Santíssima, em cuja ajuda principalmente confio. Ave Maria.

II

Exurge! Quare obdormis, Domine? Querer argumentar com Deus e convencê-lo com razões, não só dificultoso assunto parece, mas empresa declaradamente impossível, sobre arrojada temeridade. O homo, tu quis es, qui respondeas Deo? Nunquid dicit figmentum ei qui se finxit: Quid me fecisti sic? "Homem atrevido - diz S. Paulo - homem temerário, quem és tu, para que te ponhas a altercar com Deus? Porventura o barro que está na roda e entre as mãos do oficial, põe-se às razões com ele e diz-lhe: por que me fazes assim?" Pois se tu és barro, homem mortal, se te formaram as mãos de Deus da matéria vil da terra, como dizes ao mesmo Deus: - Quare? Quare? - Como te atreves a argumentar com a sabedoria divina, como pedes razão à sua Providência do que te faz ou deixa de fazer? Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Venera suas permissões, reverencia e adora seus ocultos juízos, encolhe os ombros com humildade a seus decretos soberanos, e farás o que te ensina a Fé e o que deves à criatura. Assim o fazemos, assim o confessamos, assim o protestamos diante de vossa Majestade infinita, imenso Deus, incompreensível bondade: Justus es, Domine, et rectum judicium tuum. Por mais que nós não saibamos entender vossas obras, por mais que não possamos alcançar vossos conselhos, sempre sois justo, sempre sois santo, sempre sois infinita bondade; e ainda nos maiores rigores de vossa justiça, nunca chegais com a severidade do castigo aonde nossas culpas merecem.

Se as razões e argumentos da nossa causa as houvéramos de fundar em merecimentos próprios, temeridade fora grande, antes impiedade manifesta, querer-vos argüir. Mas nós, Senhor, como protestava o vosso profeta Daniel: Neque enim in justificationibus nostris, prosternimus preces ante faciem tuam, sed in miserationibus tuis multis: os requerimentos, e razões deles, que humildemente presentamos ante vosso divino conspecto, as apelações ou embargos que interpomos à execução e continuação dos castigos que padecemos, de nenhum modo os fundamos na presunção de nossa justiça, mas todos na multidão de vossas misericórdias: In miserationibus tuis multis. Argumentamos, sim, mas de vós para vós; apelamos, mas de Deus para Deus - de Deus justo, para Deus misericordioso. E como do peito, Senhor, vos hão de sair todas as setas, mal poderão ofender vossa bondade. Mas porque a dor quando é grande sempre arrasta o afeto, e o acerto das palavras é descrédito da mesma dor, para que o justo sentimento dos males presentes não passe os limites sagrados de quem fala diante de Deus e com Deus, em tudo o que me atrever a dizer seguirei as pisadas sólidas dos que em semelhantes ocasiões, guiados por vosso mesmo espírito, oraram e exoraram vossa piedade.

Quando o povo de Israel no deserto cometeu aquele gravíssimo pecado de idolatria, adorando o ouro das suas jóias na imagem bruta de um bezerro, revelou Deus o caso a Moisés, que com ele estava, e acrescentou irado e resoluto, que daquela vez havia de acabar para sempre com uma gente tão ingrata, e que a todos havia de assolar e consumir, sem que ficasse rasto de tal geração: Dimitte me, ut irascitur furor meus contra eos et deleam eos. Não lhe sofreu, porém, o coração ao bom Moisés ouvir falar em destruição e assolação do seu povo; põe-se em campo, opõe-se à ira divina e começa a arrazoar assim: Cur, Domine, irascitur furor tuus contra populum tuum? "E bem, Senhor, por que razão se indigna tanto a vossa ira contra o vosso povo?" Por que razão, Moisés?! E ainda vós quereis mais justificada razão a Deus?! Acaba de vos dizer que está o povo idolatrando; que está adorando um animal bruto; que está negando a divindade ao mesmo Deus e dando-a a uma estátua muda, que acabaram de fazer suas mãos, e atribuindo-lhe a ela a liberdade e triunfo com que os livrou do cativeiro do Egito, e sobre tudo isso ainda perguntais a Deus por que razão se agasta: Cur irascitur furor tuus?!

- Sim, e com muito prudente zelo; porque ainda que da parte do povo havia muito grandes razões de ser castigado, da parte de Deus era maior a razão que havia de o não castigar: Ne, quaeso, - dá razão Moisés, - ne, quaeso, dicant Aegyptii: Callide eduxit eos, ut interficeret in montibus et deleret e terra. Olhai, Senhor, que porão mácula os egípcios em vosso ser, e, quando menos, em vossa verdade e bondade. Dirão que, cautelosamente e à falsa fé, nos trouxestes a este deserto, para aqui nos tirardes a vida a todos e nos sepultardes. E com esta opinião divulgada e assentada entre eles, qual será o abatimento de vosso santo nome, que tão respeitado e exaltado deixastes no mesmo Egito, com tantas e tão prodigiosas maravilhas do vosso poder? Convém logo, para conservar o crédito, dissimular o castigo e não dar com ele ocasião àqueles gentios e aos outros, em cujas terras estamos, ao que dirão: Ne, quaeso, dicant..

Desta maneira arrazoou Moisés em favor do povo; e ficou tão convencido Deus da força deste argumento, que no mesmo ponto revogou a sentença, e, conforme o texto hebreu, não só se arrependeu da execução, senão ainda do pensamento: Et poenituit Dominum mali, quod cogitaverat facere populo suo. E arrependeu-se o Senhor do pensamento e da imaginação que tivera de castigar o seu povo.

Muita razão tenho eu logo, Deus meu, de esperar que haveis de sair deste sermão arrependido, pois sois o mesmo que éreis, e não menos amigo agora, que nos tempos passados, de vosso nome: Propter nomen tuum. Moisés disse-vos: Ne, quaeso, dicant: "Olhai, senhor, que dirão." E eu digo e devo dizer: Olhai, senhor, que já dizem. Já dizem os hereges insolentes com os sucessos prósperos, que vós lhes dais ou permitis: já dizem que porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal, porque não faltará quem os creia.

Pois é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa Fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfêmias contra vosso nome?! Que diga o herege (o que treme de o pronunciar a língua), que diga o herege, que Deus está holandês?! Oh não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois! Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis; não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo e pela honra de vosso Santíssimo Nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum. Já que o pérfido calvinista dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas; as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas e despovoem os seus presídios, os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a Fé romana, que professamos, é Fé, e só ela a verdadeira e a vossa.

Mas ainda há mais quem diga. Ne, quaeso, dicant Aegyptii: Olhai, Senhor, que vivemos entre gentios, uns que o são, outros que o foram ontem; e estes que dirão? Que dirá o Tapuia bárbaro sem conhecimento de Deus? Que dirá o Índio inconstante, a quem falta a pia afeição da nossa Fé? Que dirá o Etíope boçal, que apenas foi molhado com a água do batismo sem mais doutrina? Não há dúvida que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que vêem, que a nossa Fé é falsa, e a dos holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos, sendo como eles. A seita do herege torpe e brutal concorda mais com a brutalidade do bárbaro; a largueza e soltura da vida, que foi a origem e é o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do gentilismo; e que pagão haverá que se converta à Fé que lhe pregamos, ou que novo cristão já convertido, que se não perverta, entendendo e persuadindo-se uns e outros que no herege é premiada a sua lei, e no Católico se castiga a nossa? Pois se estes são os efeitos, posto que não pretendidos, de vosso rigor e castigo, justamente começado em nós, se ateia e passa com tanto dano aos que não são cúmplices das nossas culpas: Cur irascitur furor tuus? Por que continua sem estes reparos o que vós mesmo chamastes furor? E por que não acabais já de embainhar a espada de vossa ira?

Se tão gravemente ofendido do povo hebreu, por um que dirão dos egípcios lhe perdoastes; o que dizem os hereges, e o que dirão os gentios, não será bastante motivo para que vossa rigorosa mão suspenda o castigo e perdoe também os nossos pecados, pois, ainda que grandes, são menores? Os hebreus adoraram o ídolo, faltaram à Fé, deixaram o culto do verdadeiro Deus, chamaram Deus e Deuses a um bezerro: e nós, por mercê de vossa bondade infinita, tão longe estamos e estivemos sempre de menor defeito ou escrúpulo nesta parte, que muitos deixaram a pátria, a casa, a fazenda, e ainda a mulher e os filhos, e passam em suma miséria desterrados, só por não viver nem comunicar com homens que se separaram da vossa Igreja. Pois, Senhor meu e Deus meu, se por vosso amor e por vossa Fé, ainda sem perigo de a perder ou arriscar, fazem tais finezas os portugueses: Quare oblivisceris inopiae nostrae? et tribulationis nostrae? Por que vos esqueceis de tão religiosas misérias, de tão católicas tribulações? Como é possível que se ponha Vossa Majestade irada contra estes fidelíssimos servos, e favoreça a parte dos infiéis, dos excomungados, dos ímpios?

Oh! como nos podemos queixar neste passo, como se queixava lastimado Jó, quando, despojado dos sabeus e caldeus, se viu, como nós nos vemos, no extremo da opressão e miséria: Nunquid bonum tibi videtur, si calumnieris me et opprimas me opus manuum tuarum et consilium impiorum adjuves? Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim, que sou vosso servo, me oprimais e aflijais, e aos ímpios, aos inimigos vossos os favoreçais e ajudeis? Parece-vos bem que sejam eles os prosperados e assistidos de vossa providência, e nós os deixados de vossa mão; nós os esquecidos de vossa memória, nós o exemplo de vossos rigores, nós o despojo de vossa ira? Tão pouco é desterrar-nos por vós e deixar tudo? Tão pouco é padecer trabalhos, pobrezas e os desprezos que elas trazem consigo, por vosso amor? Já a fé não tem merecimento? Já a piedade não tem valor? Já a perseverança não vos agrada? Pois se há tanta diferença entre nós, ainda que maus, e aqueles pérfidos, por que os ajudais a eles e nos desfavoreceis a nós? Nunquid bonum tibi videtur: "A vós, que sois a mesma bondade, parece-vos bem isto?"

III

Considerai, Deus meu - e perdoai-me, se falo inconsideradamente - considerai a quem tirais as terras do Brasil e a quem as dais. Tirais estas terras aos portugueses a quem nos princípios as destes; e bastava dizer a quem as dais, para perigar o crédito de vosso nome, que não podem dar nome de liberal mercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor, "quando dais, não vos arrependeis": Sine paenitentia enim sunt dona Dei? Mas deixado isto à parte: tirais estas terras àqueles mesmos portugueses a quem escolhestes entre todas as nações do Mundo para conquistadores da vossa Fé, e a quem destes por armas como insígnia e divisa singular vossas próprias chagas. E será bem, Supremo Senhor e Governador do Universo, que às sagradas quinas de Portugal e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo? E que fareis (como dizia Josué) ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta?

Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa Fé (que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis) que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos, tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora (quem tal imaginaria de vossa bondade!), com tanta afronta e ignomínia! Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra. Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e reinos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora e longe de nossa Pátria nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no Oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir, nem intentar tais empresas!

Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e, contudo, em ocasião semelhante, não falou (falando convosco) por diferente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os israelitas nela tiveram; porque foram rotos e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos, do que nós por cá costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa a clamar ao Céu: Heu! Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei? "Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos haveis de entregar nas mãos dos amorreus e perder-nos?" Utinam mansissemus trans Jordanem! "Oh! nunca nós passáramos tal rio!"

Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: "Oh! Nunca nós passáramos tal rio!". Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa Divina Majestade que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas! Ganhá-las para as não lograr, desgraça foi e não ventura; possuí-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê, nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores; para lhe lavrarmos as terras, para lhe edificarmos as cidades, e depois de cultivadas e enriquecidas lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da Fé, dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros! "Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos!"

Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas (que não são menos perigosas as conseqüências do Brasil perdido); entregai-lhes quanto temos e possuímos (como já lhes entregastes tanta parte); ponde em suas mãos o Mundo; e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais.

Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras da boca de Jó, que como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragédia. Queixava-se o exemplo da paciência a Deus (que nos quer Deus sofridos, mas não insensíveis), queixava-se do tesão de suas penas demandando e altercando, por que se lhe não havia de remitir e afrouxar um pouco o rigor delas; e como a todas as réplicas e instâncias o Senhor se mostrasse inexorável, quando já não teve mais que dizer, concluiu assim: Ecce nunc in pulvere dormiam, et si mane me quaesieris, non subsistam. Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor e chegar com ele ao cabo, seja muito embora; matai-me, consumi-me, enterrai-me: Ecce nunc in pulvere dormiam; mas só vos digo e vos lembro uma coisa: que "se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar": Et si mane me quaesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa; mas não achareis a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que a venere, não achareis a um Jó, que ainda com suas chagas a não desautorize. O mesmo digo eu, senhor, que não é muito rompa nos mesmos afetos, quem se vê no mesmo estado. Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores, que levem pelo Mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdão, Meldeburgo e Flisinga e em todas as outras colônias daquele frio e alagado inferno se está fazendo todos os dias.

IV

Bem vejo que me podeis dizer, Senhor, que a propagação de vossa Fé e as obras de vossa glória não dependem de nós, nem de ninguém, e que sois poderoso, quando faltem homens, para fazer das pedras filhos de Abraão. Mas também a vossa sabedoria e a experiência de todos os séculos nos têm ensinado, que depois de Adão não criastes homens de novo, que vos servis dos que tendes neste Mundo, e que nunca admitis os menos bons, senão em falta dos melhores. Assim o fizestes na parábola do banquete. Mandastes chamar os convidados que tínheis escolhido, e porque eles se escusaram e não quiseram vir, então admitistes os cegos e mancos, e os introduzistes em seu lugar: Caecos et claudos introduc huc. E se esta é, Deus meu, a regular disposição de vossa providência divina, como a vemos agora tão trocada em nós e tão diferente conosco? Quais foram estes convidados e quais são estes cegos e mancos? Os convidados fomos nós, a quem primeiro chamastes para estas terras, e nelas nos pusestes a mesa, tão franca e abundante, como de vossa grandeza se podia esperar. Os cegos e mancos são os luteranos e calvinistas, cegos sem fé e mancos sem obras, na reprovação das quais consiste o principal erro da sua heresia. Pois se nós, que fomos os convidados, não nos escusamos nem duvidamos de vir, antes rompemos por muitos inconvenientes em que pudéramos duvidar; se viemos e nos assentamos à mesa, como nos excluís agora e lançais fora dela e introduzis violentamente os cegos e mancos, e dais os nossos lugares ao herege? Quando em tudo o mais foram eles tão bons como nós, ou nós tão maus como eles, por que nos não há de valer pelo menos o privilégio e prerrogativa da fé? Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos de vossa providência e mudais as leis de vossa justiça conosco.

Aquelas dez virgens do vosso Evangelho todas se renderam ao sono, todas adormeceram, todas foram iguais no mesmo descuido: Dormitaverunt omnes et dormierunt. E contudo, a cinco delas passou-lhes o esposo por este defeito, e só porque conservaram as alâmpadas acesas, mereceram entrar às bodas, de que as outras foram excluídas. Se assim é, Senhor meu, se assim o julgastes então (que vós sois aquele Esposo Divino), por que não nos vale a nós também conservar as alâmpadas da Fé acesas, que no herege estão tão apagadas e tão mortas? É possível que haveis de abrir as portas a quem traz as alâmpadas apagadas, e as haveis de fechar a quem as tem acesas? Reparai, senhor, que não é autoridade do vosso divino tribunal que saíam dele no mesmo caso duas sentenças tão encontradas. Se às que deixaram apagar as alâmpadas se disse: Nescio vos; se para elas se fecharam as portas: Clausa est janua; quem merece ouvir de vossa boca um Nescio vos tremendo, senão o herege, que vos não conhece? E a quem deveis dar com a porta nos olhos, senão ao herege, que os tem tão cegos? Mas eu vejo que nem esta cegueira, nem este desconhecimento, tão merecedores de vosso rigor, lhe retarda o progresso de suas fortunas, antes a passo largo se vêm chegando a nós suas armas vitoriosas, e cedo nos baterão às portas desta vossa cidade...

Desta vossa cidade disse; mas não sei se o nome do Salvador, com que a honrastes, a salvará e defenderá, como já outra vez não defendeu; nem sei se estas nossas deprecações, posto que tão repetidas e continuadas, acharão acesso a vosso conspecto divino, pois há tantos anos que está bradando ao Céu a nossa justa dor, sem a vossa clemência dar ouvidos a nossos clamores.

Se acaso for assim (o que vós não permitais), e está determinado em vosso secreto juízo que entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente e muito deveras, é que antes da execução da sentença repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração enquanto é tempo; porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se, enfim, as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se o Mundo todo: já estaria satisfeita a vossa justiça. Senão quando, ao terceiro dia, começaram a boiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens que a vissem não os havia. Vistes vós também (como se o vísseis de novo) aquele lastimosíssimo espetáculo, e posto que não chorastes, porque ainda não tínheis olhos capazes de lágrimas, enterneceram-se, porém, as entranhas de vossa Divindade, "com tão intrínseca dor": Tactus dolore cordis intrinsecus que, do modo que em vós cabe arrependimento, vos arrependestes do que tínheis feito ao Mundo; e foi tão inteira a vossa contrição, que não só tivestes pesar do passado, senão propósito firme de nunca mais o fazer: Nequanquam ultra maledicam terrae propter homines.

Este sois, Senhor, este sois; e pois sois este não vos tomeis com vosso coração. Para que é fazer agora valentias contra ele, se o seu sentimento, e o vosso as há de pagar depois? Já que as execuções de vossa justiça custam arrependimento à vossa bondade, vede o que fazeis antes que o façais, não vos aconteça outra. E para que o vejais com cores humanas, que já vos não são estranhas, dai-me licença que eu vos represente primeiro ao vivo as lástimas e misérias deste futuro dilúvio, e se esta representação vos não enternecer e tiverdes entranhas para o ver sem grande dor, executai-o embora.

Finjamos, pois (o que até fingido e imaginado faz horror); finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses; que é o que há de suceder em tal caso? - Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos; chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito a suas cãs; chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão finalmente todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a esses perdoará (como em outras ocasiões não perdoou), a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora, que não era bem castigar a Nínive. Mas não sei que tempos, nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo (que é o que mais sente a piedade cristã), também a vós há de chegar.

Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão essa custódia, em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes; derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo; e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem às imagens tremendas de Cristo crucificado, nem às da Virgem Maria.

Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas nas da Virgem Maria, nas de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de Filho. No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar nem a lhe perder o respeito. Assim foi e assim havia de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo Profeta: Flagellum non appropinquabit tabernaculo tuo. Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa Mãe, como consentis agora que se lhe façam tantos desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a Arca do Testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a vida. Pois se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, por que o não há também agora? Bastava então qualquer dos outros desacatos às coisas sagradas, para uma severíssima demonstração vossa, ainda milagrosa. Se a Jeroboão, por que levantou a mão para um Profeta, se lhe secou logo o braço milagrosamente, como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar vossos santos, lhes ficam ainda braços para outros delitos? Se a Baltasar, por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava vosso sangue, o privastes da vida e do reino, por que vivem os hereges, que convertem vossos cálices a usos profanos? Já não há três dedos que escrevam sentença de morte contra sacrílegos?!

Enfim, Senhor, despojados assim os templos e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica; acabar-se-á o culto divino; nascerá erva nas igrejas, como nos campos; não haverá quem entre nelas. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalém destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint qui veniant ad solemnitatem. Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses; e chegaremos a estado que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: - Menino, de que seita sois? Um responderá: - Eu sou calvinista; outro: - Eu sou luterano.

Pois isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a São Pedro, examinaste-lo três vezes se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão aos lobos?! Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito, e nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é (que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas), se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções agora, que não é justo vos contente antes o de que vos há de pesar em algum tempo.

Muito honrastes, Senhor, ao homem na criação do Mundo, formando-o com vossas próprias mãos, informando-o e animando-o com vosso próprio alento e imprimindo nele o caráter de vossa imagem e semelhança. Mas parece que logo desde aquele mesmo dia vos não contentastes dele, porque de todas as outras coisas que criastes, diz a Escritura que vos pareceram bem: Vidit Deus quod esset bonum; e só do homem o não diz. Na admiração desta misteriosa reticência andou desde então suspenso e vacilando o juízo humano, não podendo penetrar qual fosse a causa por que, agradando-vos com tão pública demonstração todas as vossas obras, só do homem, que era a mais perfeita de todas, não mostrásseis agrado. Finalmente, passados mais de mil e setecentos anos, a mesma Escritura, que tinha calado aquele mistério, nos declarou que vós estáveis arrependido de ter criado o homem: Paenituit eum quod hominem fecisset in terra, e que vós mesmo dissestes que vos pesava: Paenitet me fecisse eos; e então ficou patente e manifesto a todos o segredo que tantos tempos tínheis ocultado. E vós, Senhor, dizeis que vos pesa e que estais arrependido de ter criado o homem; pois essa é a causa por que logo desde o princípio de sua criação vos não agradastes dele, nem quisestes que se dissesse que vos parecera bem, julgando, como era razão, por coisa muito alheia de vossa sabedoria e providência, que em nenhum tempo vos agradasse nem parecesse bem aquilo de que depois vos havíeis de arrepender e ter pesar de ter feito: Paenitet me fecisse.

Sendo, pois, esta a condição verdadeiramente divina e a altíssima razão de estado de vossa providência - não haver jamais agrado do que há de haver arrependimento; e sendo também certo nas piedosíssimas entranhas de vossa misericórdia, que se permitirdes agora as lástimas, as misérias, os estragos que tenho representado, é força que vos há de pesar depois e vos haveis de arrepender, arrependei-vos, misericordioso Deus, enquanto estamos em tempo, ponde em nós os olhos de vossa piedade, ide à mão à vossa irritada justiça, quebre vosso amor as setas de vossa ira, e não permitais tantos danos, e tão irreparáveis. Isto é o que vos pedem, tantas vezes prostradas diante de vosso divino acatamento, estas almas tão fielmente católicas, em nome seu e de todas as deste Estado. E não vos fazem esta humilde deprecação pelas perdas temporais, de que cedem, e as podeis executar neles por outras vias; mas pela perda espiritual eterna de tantas almas, pelas injúrias de vossos templos e altares, pela exterminação do sacrossanto sacrifício de vosso corpo e sangue, e pela ausência insofrível, pela ausência e saudades desse Santíssimo Sacramento, que não sabemos quanto tempo teremos presente.

V

Chegado a este ponto, de que não sei nem se pode passar, parece-me que nos está dizendo vossa divina e humana bondade, Senhor, que o fizéreis assim facilmente, e vos deixaríeis persuadir, e convencer destas nossas razões, senão que está clamando por outra parte vossa divina justiça; e como sois igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar de castigar, sendo os pecados do Brasil tantos e tão grandes. Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que somos grandíssimos pecadores. Mas tão longe estou de me aquietar com esta resposta, que antes esses mesmos pecados muitos e grandes são um novo e poderoso motivo dado por vós mesmo para mais convencer vossa bondade.

A maior força dos meus argumentos não consistiu em outro fundamento até agora, que no crédito, na honra e na glória de vosso santíssimo nome: Propter nomen tuum. E que motivo posso eu oferecer mais glorioso ao mesmo nome, que serem muitos e grandes os nossos pecados? Propter nomen tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim: "Por amor de vosso nome, Senhor, estou certo - dizia Davi - que me haveis de perdoar meus pecados, porque não são quaisquer pecados, senão muitos e grandes." Multum est enim. Oh! motivo digno só do peito de Deus! Oh! conseqüência que só na suma bondade pode ser forçosa! De maneira que, para lhe serem perdoados seus pecados, alegou um pecador a Deus que são muitos e grandes. Sim; e não por amor do pecador, nem por amor dos pecados, senão por amor da honra e glória do mesmo Deus, a qual quanto mais e maiores são os pecados que perdoa, tanto maior é e mais engrandece e exalta o seu santíssimo nome: Propter nomen tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim. O mesmo Davi distingue na misericórdia de Deus grandeza e multidão. A grandeza: Secundum magnam misericordiam tuam; a multidão: Et secundum multitudinem miserationum tuarum. E como a grandeza da misericórdia divina é imensa e a multidão de suas misericórdias infinita; e o imenso não se pode medir, nem o infinito contar; para que uma e outra, de algum modo, tenha proporcionada matéria de glória, importa à mesma grandeza da misericórdia que os pecados sejam grandes e à mesma multidão das misericórdias, que sejam muitos: Multum est enim. Razão tenho eu logo, Senhor, de me não render à razão de serem muitos e grandes nossos pecados. E razão tenho também de instar em vos pedir a razão por que não desistis de os castigar: Quare obdormis? Quare faciem tuum avertis? Quare oblivisceris inopiae et tribulationis nostrae?

Esta mesma razão vos pediu Jó quando disse: Cur non tollis peccatum meum et quare non aufers iniquitatem meam? E posto que não faltou um grande intérprete de vossas Escrituras que argüísse por vossa parte, enfim se deu por vencido e confessou que tinha razão Jó em vo-la pedir: Criminis in loco Deo impingis, quod ejus, qui deliquit, non miseretur? - diz S. Cirilo Alexandrino - Basta, Jó, que criminais e acusais a Deus de que castiga vossos pecados? Nas mesmas palavras confessais que cometestes pecados e maldades; e com as mesmas palavras pedis razão a Deus por que as castiga? Isto é dar a razão, e mais pedi-la. Os pecados e maldades, que não ocultais, são a razão do castigo: pois se dais a razão, por que a pedis? - Porque ainda que Deus para castigar os pecados, tem a razão de sua justiça, para os perdoar e desistir do castigo, tem outra razão maior, que é a da sua glória: Qui enim misereri consuevit, et non vulgarem in eo gloriam habet; ob quam causam mei non miseretur? Pede razão Jó a Deus, e tem muita razão de a pedir (responde por ele o mesmo santo, que o argüiu), porque, se é condição de Deus usar de misericórdia, e é grande e não vulgar a glória que adquire em perdoar pecados, que razão tem, ou pode dar bastante, de os não perdoar? O mesmo Jó tinha já declarado a força deste seu argumento nas palavras antecedentes com energia para Deus muito forte: Peccavi, quid faciam tibi? Como se dissera: "Se eu fiz, Senhor, como homem em pecar, que razão tendes vós para não fazer, como Deus, em me perdoar?" Ainda disse e quis dizer mais: Peccavi, quid faciam tibi? "Pequei, que mais posso fazer?" E que fizestes vós, Jó, a Deus, em pecar? - Não lhe fiz pouco; porque lhe dei ocasião a me perdoar, e perdoando-me, ganhar muita glória. Eu dever-lhe-ei a ele, como a causa, a graça que me fizer; e ele dever-me-á a mim, como ocasião, a glória que alcançar.

E se é assim, Senhor, sem licença, nem encarecimento; se é assim, misericordioso Deus, que em perdoar pecados se aumenta a vossa glória, que é o fim de todas as vossas ações; não digais que nos não perdoais, porque são muitos e grandes os nossos pecados, que antes porque são muitos e grandes, deveis dar essa grande glória à grandeza e multidão de vossas misericórdias. Perdoando-nos e tendo piedade de nós, é que haveis de ostentar a soberania de vossa majestade, e não castigando-nos, em que mais se abate vosso poder, do que se acredita. Vede-o neste último castigo, em que, contra toda a esperança do mundo e do tempo, fizestes que se derrotasse a nossa armada, a maior que nunca passou a Equinocial. Pudestes, Senhor, derrotá-la; e que grande glória foi de vossa onipotência poder o que pode o vento? Contra folium, quod vento rapitur, ostendis potentiam. Desplantar uma nação, como nos ides desplantando, e plantar outra, também é poder que vós cometestes a um homenzinho de Anatote: Ecce constitui te super gentes et super regna, ut evellas et destruas et disperdas et dissipes et aedifices et plantes. O em que se manifesta a majestade, a grandeza e a glória de vossa infinita onipotência, é em perdoar e usar de misericórdia: Qui omnipotentiam tuam, parcendo maxime, et miserando, manifestas. Em castigar, venceis-nos a nós, que somos criaturas fracas; mas em perdoar, venceis-vos a vós mesmo, que sois todo poderoso e infinito. Só esta vitória é digna de vós, porque só vossa misericórdia pode pelejar com armas iguais contra vossa justiça; e sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor. Perdoai, pois, benigníssimo Senhor, por esta grande glória vossa: Propter magnam gloriam tuam: perdoai por esta glória imensa de vosso santíssimo nome: Propter nomen tuum.

E se acaso ainda reclama vossa divina justiça, por certo, não já misericordioso, senão justíssimo Deus, que também a mesma justiça se pudera dar por satisfeita com os rigores e castigos de tantos anos. Não sois vós, enquanto justo, aquele justo juiz de quem canta o vosso Profeta: Deus Judex justus, fortis et patiens, nunquid irascitur per singulos dies? Pois se a vossa ira, ainda como de justo juiz, não é de todos os dias nem de muitos, por que se não dará por satisfeita com rigores de anos e tantos anos? Sei eu, Legislador Supremo, que nos casos de ira, posto que justificada, nos manda vossa santíssima Lei que não passe de um dia, e que antes de se pôr o Sol tenhamos perdoado: Sol non occidat super iracundiam vestram. Pois se da fraqueza humana, e tão sensitiva, espera tal moderação nos agravos vossa mesma Lei, e lhe manda que perdoe e se aplaque em termo tão breve e tão preciso, vós, que sois Deus infinito e tendes um coração tão dilatado como vossa mesma imensidade, e em matéria de perdão vos propondes aos homens por exemplo, como é possível que os rigores de vossa ira se não abrandem em tantos anos, e que se ponha e torne a nascer o Sol tantas e tantas vezes, vendo sempre desembainhada e correndo sangue a espada de vossa vingança? Sol de justiça cuidei eu que vos chamavam as Escrituras, porque, ainda quando mais fogoso e ardente, dentro do breve espaço de doze horas, passava o rigor de vossos raios; mas não o dirá assim este Sol material que nos alumia e rodeia, pois há tantos dias e tantos anos que, passando duas vezes sobre nós de um trópico a outro, sempre vos vê irado.

Já vos não alego, Senhor, com o que dirá a Terra e os homens, mas com o que dirá o Céu e o mesmo Sol. Quando Josué mandou parar o Sol, as palavras da língua hebraica em que lhe falou, foram, não que parasse, senão que se calasse: Sol tace contra Gabaon. Calar mandou ao Sol o valente capitão, porque aqueles resplandores amortecidos com que se ia sepultar no Ocaso, eram umas línguas mudas com que o mesmo Sol o murmurava de demasiadamente vingativo; eram umas vozes altíssimas, com que desde o Céu lhe lembrava a Lei de Deus, e lhe pregava que não podia continuar a vingança, pois ele se ia meter no Ocidente: Sol non occidat super iracundiam vestram. E se Deus, como autor da mesma Lei, ordenou que o Sol parasse, e aquele dia (o maior que viu o Mundo) excedesse os termos da natureza por muitas horas e fosse o maior, foi para que, concordando a justa lei com a justa vingança, nem por uma parte se deixasse de executar o rigor do castigo, nem por outra se dispensasse no rigor do preceito. Castigue-se o gabaonita, pois é justo castigá-lo; mas esteja o Sol parado até que se acabe o castigo, para que a ira, posto que justa, do vencedor, não passe os limites de um dia.

Pois se este é, Senhor, o termo prescrito de vossa Lei; se fazeis milagres e tais milagres para que ela se conserve inteira, e se Josué manda calar e emudecer o Sol, porque se não queixe e dê vozes contra a continuação de sua ira, que quereis que diga o mesmo Sol, não parado nem emudecido? Que quereis que diga a Lua e as estrelas, já cansadas de ver nossas misérias? Que quereis que digam todos esses céus criados, não para apregoar vossas justiças, senão para cantar vossas glórias: Coeli enarrant gloriam Dei?

Finalmente, benigníssimo Jesus, verdadeiro Josué e verdadeiro Sol, seja o epílogo e conclusão de todas as nossas razões o vosso mesmo nome: Propter nomen tuum. Se o Sol estranha a Josué rigores de mais de um dia, e Josué manda calar o Sol, porque lhos não estranhe; como pode estranhar vossa divina justiça que useis conosco de misericórdia, depois da execução de tantos e tão rigorosos castigos continuados, não por um dia ou muitos dias de doze horas, senão por tantos e tão compridos anos, que cedo serão doze? Se sois Jesus, que quer dizer Salvador, sede Jesus e sede Salvador nosso. Se sois Sol e Sol de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa. Deixai já o signo rigoroso de Leão, e dai um passo ao signo de Virgem, signo propício e benéfico. Recebei influências humanas, de quem recebestes a humanidade. Perdoai-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santíssima. Perdoai-nos por seus rogos, ou perdoai-nos por seus impérios; que, se como criatura vos pede por nós o perdão, como Mãe vos pode mandar e vos manda que nos perdoeis. Perdoai-nos, enfim, para que a vosso exemplo perdoemos; e perdoai-nos também a exemplo nosso, que todos desde esta hora perdoamos a todos por vosso amor: Dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris. Amen.

História

Ancient History Sourcebook
World Civilizations: An Internet Classroom and Anthology( excelente site de História Mundial)
The Catholic Encyclopedia (excelente trabalho, escrito entre 1904 e 1914, mostrando como era o mundo no apogeu europeu de antes da "Grande Guerra")
Encyclopedia of Marxism(excelente trabalho, com muitos verbetes, de "Aristotle" a "Feynman", e textos de Adam Smith, Darwin, Galileo, Einstein, etc, além de centenas de textos clássicos de escritores marxistas.)
Os Pais da Igreja(centenas de textos clássicos dos primeiros séculos do cristianismo)
Endereços de História (Página do psicólogo gaúcho Paulo Slomp, com quase 100 sites.)
The Internet Medieval Source Book: Iberia (grande compilação de documentos medievais ibéricos)
Vasco da Gama: Round Africa to India,1497-1498 (em suas palavras...)
Dutch and Portuguese Colonial History (with some information about other european imperial powers) (Excelente página, escrita principalmente em inglês, sobre a expansão imperial de países europeus ocidentais pelo resto do Mundo nos séculos XVI e XVII, em histórias muito pouco conhecidas que vão do Rio de Janeiro ao Japão passando por Gana e pelo Tibete... Na primeira metade do Século XVI Portugal era a maior potência marítima do Mundo, controlando todos os pontos estratégicos dos Oceanos, onde deixou comunidades hoje com algumas centenas ou milhares de pessoas que até hoje falam português. Depois veio a derrota de Alcacer-Quibir (1578), o primeiro fracasso imperialista do primeiro Estado Nacional europeu, a subsequente anexação à Espanha durante quase um século e a perda de boa parte do Império.Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!/Por te cruzarmos, quantas mães choraram,/Quantos filhos em vão rezaram!/Quantas noivas ficaram por casar/Para que fosses nosso, ó mar!/Valeu a pena?/Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa. Mar Portuguez)).
Veja no fim desta página duas versões da lenda da "Nau Catarineta", que descreve estas viagens e ainda hoje vive no folclore e na música brasileiras e na literatura portuguesa. Ela relata os perigos do corpo e da alma pois como dizia o jagunço Riobaldo (Guimarães Rosa), "Viver é muito perigoso".
Berkeley Digital Library Sunsite possue numerosos textos como os medievais da The Online Medieval & Classical Library, os de literatura, os egípcios antigos The Tebtunis Papiry Collection.
Documents in Law, History and Diplomacy (Projeto Avalon da Escola de Direito de Yale)
LIBRO: Library of Iberian Resources Online (o texto integral de mais de 30 teses sobre a Península Ibérica nos tempos medievais)
Revista Brasileira de História (revista da Soc. Bras. de História).
Revista Brasileira de Ciências Sociais (revista da ANPOCS).
Revista Estudos Históricos (revista do CPDOC/FGV)
A campanha Abolicionista (José de Patrocínio) (textos obtidos no site da Biblioteca Nacional)
FAGULHA (Ana Cristina César, 1952-1983)

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando.
Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

História da Ciência

Fontes para a História da Ciência
História da Ciência no Rio de Janeiro e no Brasil em geral(contém diversos links, entre eles o da excelente página com os trabalhos do sociólogo da educação e da ciência Simon Schwartzman.)
Internet History of Science Sourcebook(centenas de textos científicos, desde o início da Civilização...)
Classic Chemistry(lista fantástica de artigos em história da Física e da Química)
Livros científicos originais medievais , do Século XVI, do Século XVII, do Século XVIII e do Século XIX (centenas de livros, todos em francês)
Os textos dos trabalhos de Charles Darwin
Discourse of the reason or, Discourse on the Method of Rightly Conducting the Reason, and Seeking Truth in the Sciences, by Rene Descartes.
Summa Theologica. Neste livro São Tomás de Aquino reconciliou Aristóteles com o cristianismo da Europa Ocidental, como séculos antes já tinham feito os islâmicos e os cristãos ortodoxos. Nos cinco séculos seguintes os livros de Aristóteles foram a base da Ciência e da Cultura em geral na Europa, inclusive o livro de Física. O método científico também ressurgiu na Europa Ocidental nos séculos XIII e XIV, mas de forma muito tímida. A partir do século XVII isto começou a ocorrer de forma mais intensa, exigindo que os livros de Aristóteles fossem refutados. A Ciência e o ensino nela baseada no entanto custou a entrar nas universidades. Em Portugal isto ocorreu na segunda metade do Século XVIII, com a reforma da Universidade de Coimbra e a expulsão dos padres jesuítas. Na Alemanha isto ocorreu no início do século XIX, com Humboldt fundando a Universidade de Berlim, e na Grã-Bretanha ocorreu em meados do século XIX, com o Cardeal Newman e a universidade de Dublin.
Com o tempo o prado seco reverdece (Luís Vaz de Camões)
Com o tempo o prado seco reverdece,
Com o tempo cai a folha ao bosque umbroso,
Com o tempo para o rio caudaloso,
Com o tempo o campo pobre se enriquece,
Com o tempo um louro morre, outro floresce,
Com o tempo um é sereno, outro invernoso,
Com o tempo foge o mal duro e penoso,
Com o tempo torna o bem já quando esquece,
Com o tempo faz mudança a sorte avara,
Com o tempo se aniquila um grande estado,
Com o tempo torna a ser mais eminente.
Com o tempo tudo anda, e tudo pára,
Mas só aquele tempo que é passado
Com o tempo se não faz tempo presente.

Poesia

Poesia na Língua Portuguesa (É uma excelente compilação, com poesias mais de 3000 poetas, só de Fernando Pessoa tem mais de 1000 poemas. Há páginas especiais para Pessoa, Camões, Castro Alves, Augusto dos Anjos e Poetas de cordel. Infelizmente só existe hoje como uma página salava pelo Web Archives, e o acesso é bem lento.)
Fernando Pessoa - Obra Poética
Luís Vaz de Camões (obra poética do fundador da língua portuguesa, numa página salva graças ao utilíssimo Web Archive, que já usara para a Clarice Lispector...)
Gregório de Matos Guerra
Alguns versos do Carlos Drummond de Andrade, junto com três textos de prosa, uma biografia e sua bibliografia.
Sophia Andresen(400 poemas)
As tormentas (mais de 11 mil poemas de mais de 2000 poetas...)
nEscritas (Página extremamente bem cuidada com muitos poemas em língua portuguesa, infelizmente só existe agora numa versão salva pelo Web Archives, de acesso bem lento. Tem páginas para os poetas Al Berto, António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Fernando Pessoa -Mensagem, José Luiz Peixoto, João-Maria Nabais, Miguel Torga, Ruy Bello, Sophia M. Breyner Andresen e outras sessões.)
Versos de Segunda, compilação de poemas de língua portuguesa.
Casa de chá Luar de Outono(muitos poemas escritos por mulheres, com destaque para os da Ana Cristina Cesar, um pouco de literatura russa, links variados e um lindo visual. Veja também Mulheres que amo, um site com centenas de poesias e contos de autores femininos.)
O poema (28 poetas do mundo todo, muito bem selecionados)
Emily Dickinson na Wikipedia, com 1775 poemas.
T.S. Eliot na Wikipedia (tem links para suas obras e algumas delas são lidas pelo autor)
Hilda Hist
Mário Quintana
Caixa de haikai
Pedaços de mim (poemas de Eugénia Tabosa)
Pablo Neruda - vida e obra (excelente "site" da Universidade do Chile)
Poesía en español
An Index of Poets in English Language, with Representative Poetry On-line
Great Writers and Poets
A small anthology of poems
Le site de poesie de Marie...(veja mais poesia francesa em Liens de poesie...)
Cais de Poemas
Anel de poesia. É uma lista de cerca de 100 sites de poesia, entre eles os de Mariana Ianelli e de Greta Benitez.
Autores africanos do Rovuma ao Maputo(poesia em língua portuguesa)
Poesia africana de expressão portuguesa
Poetas brasileiros famosos (alguns poemas em língua portuguesa, com ilustrações)

Música brasileira e portuguesa

Gilberto Gil - Discografia
Antonio Carlos Jobim: Clube do Tom
Arquivo MPB (veja a lista de autores e músicas)
Índice de Músicas da MPB
Cifra Club - Acervo de Cifras e Tablaturas
Cliquemusic (Discografia, biografias e outras informações da MPB)
MPBnet (quase tres mil letras, veja a lista)
Letras de música brasileiras e estrangeiras (mais de duas mil letras: 101 da Legião Urbana, 106 dos Titãs, etc)
Inesquecíveis Músicas Fagueiras (quase duas mil letras de músicas brasileiras e de tangos, veja a lista)
Músicas Clássicas Brasileiras(milhares de letras com cifra para violão! Está um pouco lenta, pois foi apagada e sobrevive no Web Archive...)
Arquivo de Música de Língua Portuguesa (mais de mil letras, principalmente portuguesas).
Vida e obra de Zeca Afonso (compositor português, autor da música símbolo da Revolução dos Cravos, Grândola Vila Morena .
Letras de música brasileira e hispanoamericana (LANIC, da universidade do Texas)
Música colonial brasileira
Cuitelinho (Folclore, coletado por Paulo Vanzolini e Antonio Xandó)
Cheguei na beira do porto,
onde as ondas se espáia.
As garça dá meia volta,
e senta na beira da praia.
E o cuitelinho não gosta,
Que o botão da rosa caia, ai, ai, ai.

Ai quando eu vim de minha terra,
despedi da "parentaia".
Eu entrei no Mato Grosso,
Dei em terras paraguaia.
Lá tinha revolução,
Enfrentei fortes bataia, ai, ai, ai.

A tua saudade corta,
Como aço de navaia.
O coração fica aflito,
Bate uma, a outra faia.
E os óio se enche dágua,
Que até a vista se atrapaia, ai, ai, ai.


Quando não encontrar...

Você procurou e ainda assim não achou a informação ou o texto desejados? Tente então uma
busca de informações na Internet ou de uma
busca e compra de livros, e boa sorte!
Mas pode ser que você esteja procurando saber o que existe em algum assunto, talvez para enviar uma poesia ou um conto ou uma letra de música a alguém muito especial e... não tenha achado nada! Sugiro então uma visita aos sites de cartões virtuais Action Cat (tem centenas de animações, com gatos e outros bichos), o ze-card (com cartões os mais diversos) e os maravilhosos cartões impressionistas, com muitas reproduç&otolde;es de e informações sobre Monet, Renoir. Klimt, Van Gogh, Modigliani , Degas, Gauguin e Cezanne. (Para os ver todos clique em "e-cards", em cima, e depois clique em "search" All, à esquerda. Para trocar de pintor, vá na parte de baixo dessa página.) Uma imagem às vezes vale mil palavras...


Se você tem ou conhece algum "site" que possa se somar a estes, ou se você descobrir "links" que não funcionam, por favor me avise! E, se tiver tempo disponível, por favor visite a Física Atômica, Ensino de Física, Bibliotecas & Currículo, a minha página no IF, meu blog literário no Multiply ou minha página no Orkut...
Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa
"O senhor... Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão".

A Nau Catrineta
Romance, ou xácara, coletado por Almeida Garrett. Garrett acreditava que a viagem da nau portuguesa, que 1565 transportava Jorge de Albuquerque Coelho de Olinda para Lisboa, deu origem a esta xácara. (recolhido no site de Angela Lago)

Lá vem a nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide, agora, senhores,
Uma história de pasmar.
Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija
Que a não puderam tragar.
Deitaram sorte à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.
-- Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal.
"Não vejo terras de Espanha,
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar".
-- Acima, acima gajeiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal
"Alvíçaras, capitão,
Meu capitão general!
Já vejo terra de Espanha,
Areias de Portugal.
Mais enxergo três meninas
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar".
--Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar.
"A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar".
-- Dar-te-ei tanto dinheiro,
Que o não possas contar.
"Não quero o vosso dinheiro,
pois vos custou a ganhar!
-- Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual.
"Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar".
--Dar-te-ei a nau Catrineta
Para nela navegar.
"Não quero a nau Catrineta
Que a não sei governar".
-- Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíçaras te hei-de dar?
"Capitão, quero a tua alma
Para comigo a levar".
-- Renego de ti, demônio,
Que me estavas a tentar!
A minha alma é só de Deus,
O corpo dou eu ao mar.
Tomou-o um anjo nos braços,
Não o deixou afogar.
Deu um estouro o demônio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a nau Catrineta
Estava em terra a varar.

Veja outras versões, recolhidas em Sergipe, por Luís da Câmara Cascudo, e no Rio Grande do Sul. Note as diferentes leituras e decida o que o Gajeiro quer: a Alma, a Nau, os bens ou as três filhas do Capitão... (Gajeiro é o marinheiro que está na gávea, ao alto do mastro, e vigia. Ele é o que observa as embarcações ou a terra, o que busca informações, o que olha mais longe...)

Nau Catrineta, obtida no site português Cancioneiro.

Lá vem a Nau Catrineta,
que tem muito que contar!
Ouvide, agora, senhores,
Uma história de pasmar."
Passava mais de ano e dia,
que iam na volta do mar.
Já não tinham que comer,
nem tão pouco que manjar.
Já mataram o seu galo,
que tinham para cantar.
Já mataram o seu cão,
que tinham para ladrar."
"Já não tinham que comer,
nem tão pouco que manjar.
Deitaram sola de molho,
para o outro dia jantar.
Mas a sola era tão rija,
que a não puderam tragar."
"Deitaram sortes ao fundo,
qual se havia de matar.
Logo a sorte foi cair
no capitão general"
- "Sobe, sobe, marujinho,
àquele mastro real,
vê se vês terras de Espanha,
ou praias de Portugal."
- "Não vejo terras de Espanha,
nem praias de Portugal.
Vejo sete espadas nuas,
que estão para te matar."
- "Acima, acima, gajeiro,
acima ao tope real!
Olha se vês minhas terras,
ou reinos de Portugal."
- "Alvíssaras, senhor alvissaras,
meu capitão general!
Que eu já vejo tuas terras,
e reinos de Portugal.
Se não nos faltar o vento,
a terra iremos jantar.
Lá vejo muitas ribeiras,
lavadeiras a lavar;
vejo muito forno aceso,
padeiras a padejar,
e vejo muitos açougues,
carniceiros a matar.
Também vejo três meninas,
debaixo de um laranjal.
Uma sentada a coser,
outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas,
está no meio a chorar."
- "Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar"
- "A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar.
Que eu tenho mulher em França,
filhinhos de sustentar.
Quero a Nau Catrineta,
para nela navegar."
- "A Nau Catrineta, amigo,
eu não te posso dar;
assim que chegar a terra,
logo ela vai a queimar.
- "Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual."
- "Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar."
- "Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não possas contar"
- "Não quero o vosso dinheiro
Pois vos custou a ganhar.
Quero a Nau Catrineta,
para nela navegar.
Que assim como escapou desta,
doutra ainda há-de escapar"
Lá vai a Nau Catrineta,
leva muito que contar.
Estava a noite a cair,
e ela em terra a varar.


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Atualizado em 07/3/2014