A População mundial e as necessidades energéticas
Com base em estimativas razoáveis, a população mundial atingirá 10 bilhões de pessoas em meados do século XXI.
Em 1990, o consumo de energia primária por habitante e por ano
era de 2.2x1011 joule ou 5.1 tep (toneladas de equivalente em
petróleo: 4.4x1010 J = 12000 KWh) nos países industrializados,
e dez vezes menos nos países em vias de desenvolvimento. De acordo
com os cenários escolhidos para a procura energética, o consumo
de energia primária mundial poderá atingir duas a três
vezes o consumo atual.
| Grupo de Países | Por Habitante (tep/ano) | Procura Global (tep/ano) | ||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1988 | 2050 | 1988 | 2050 | |||
| normal | baixa | normal | baixa | |||
| Comunidade Européia | 5.2 | 5.2 | 2.6 | 4.0 | 4.6 | 2.3 |
| Países do Leste | 4.4 | 4.4 | 2.2 | 1.9 | 2.1 | 1.1 |
| Países em vias de desenvolvimento | 0.5 | 1.5 | 1.0 | 2.0 | 13.8 | 9.2 |
| Mundo (total) | 1.5 | 2.0 | 1.2 | 7.9 | 20.5 | 12.6 |
As fontes de energia capazes de corresponder de forma substancial a esta procura são:
A fusão é o processo no qual dois núcleos de átomos leves (tais como o hidrogênio) se combinam, ou se fundem, constituindo elementos mais pesados. Para que estes núcleos,carregados positivamente, se possam aproximar suficientemente um do outro (ou seja, vencer a força de repulsão eletrostática entre eles), e que as reações de fusão se possam produzir a uma taxa conveniente, são necessárias temperaturas da ordem dos 100 milhões de graus. A estas temperaturas, o gás encontra-se ionizado no estado de plasma, (os ions e os eletrons formam um fluido macroscopicamente neutro) e não pode evidentemente estar em contato com as paredes materiais. A concepção do reator de fusão baseado na configuração "Tokamak" (atualmente o conceito mais avançado) prevê um campo magnético que permite isolar térmicamente o plasma das paredes materiais. O volume de plasma será da ordem de 1000 m3 e a potência de fusão deverá atingir vários gigawatts (1 giga=109).
As reações termonucleares nas estrelas
A fusão é a fonte de energia do Sol e das outras estrelas. Uma estrela começa a brilhar quando a matéria no seu núcleo atinge, por efeito das forças de gravitação, densidades e temperaturas suficientes para desencadear reações termonucleares que libertam energia permitindo equilibrar dinâmicamente a gravitação e emitir radiação para o espaço.
Numa primeira fase, a cadeia principal de reações é a que consiste na fusão de quatro núcleos de hidrogênio em dois núcleos de hélio, com emissão de fotons, neutrinos, eletrons e positrons. Em menor grau, o hélio começa também a fundir-se para criar elementos mais pesados (berílio, boro), com produção suplementar de energia.
O sol, reator natural de 4 x 1026watt, não é
um reator muito calmo. As turbulências e as instabilidades são
frequentes, criando em particular protuberâncias gigantescas na superfície
do sol.
Nas estrelas com grande massa, após a combustão completa do hidrogênio, a gravitação continua a dominar e comprime o núcleo da estrela tornando possíveis as reações de fusão do hélio. Numa sucessão de contrações e de novas cadeias de reações termonucleares, novas espécies nucleares são produzidas e queimadas por sua vez na 'fornalha' estelar. Quando deixa de haver possibilidade de ocorrerem reações termonucleares - por exemplo quando o núcleo das estrelas é constituído por ferro - o ciclo de vida de uma estrela chega ao fim, com um fogo de artifício de 'novas' ou num lento desaparecimento de estrelas 'anãs'.
O desafio das pesquisas sobre a fusão é de reproduzir à superfície da Terra reatores utilizando reações termonucleares semelhantes às que ocorrem no Sol e utilizá-las para proveito da humanidade.
Fusão Termonuclear Controlada
A reação de fusão com interesse mais imediato para se realizar em laboratório é a que envolve os núcleos de duas formas pesadas (isótopos) do hidrogénio - o deutério (D) e o trítio (T):
D + T -> He + n + 17.6 MeVO deutério é abundante na água do mar (30 g/m3) mas o trítio, sendo radioativo com uma semi-vida de 12.36 anos, não existe na natureza e deve ser produzido.
Num reator de fusão, os neutrons (n), os quais transportam 80% da energia produzida, serão absorvidos numa camada fértil ("blanket") que envolve o núcleo do reator e que contém Lítio (Li), e qual se transforma em trítio e hélio:
6Li + n -> 4He + T + 4.86 MeV 7Li + n -> 4He + T + n - 2.5 MeVO lítio natural (92.5 % de 7Li e 7.5% de 6Li) é um elemento abundante na crosta terrestre (30 g/m3) e em concentrações mais fracas nos oceanos.
A camada fértil deverá ser suficientemente espessa (cerca de 1 m) para retardar os neutrons de fusão (14 MeV). Na sequência da desaceleração dos neutrons, esta camada é aquecida e um fluido que aí circula, transfere o calor para fora da zona do reator para produzir vapor e finalmente eletricidade por processos convencionais.
A fusão termonuclear poderá tornar-se uma nova e considerável fonte de energia com vantagens intrínsecas:
Do ponto de vista econômico, é demasiado cedo para avaliar com precisão o impacto da fusão nuclear. Os custos de investimento serão certamente mais elevados do que para as centrais de carvão ou de fissão, mas o custo do combustível será muito reduzido.
Existem outros combustíveis além do deutério e trítio que poderão alimentar uma segunda geração de reatores. As reações que se podem realizar a longo prazo com estes combustíveis avançados produzem menos neutrons energéticos (D-D) ou mesmo nenhum neutron (D-3He). Neste caso, os reatores não necessitam de camada fértil de trítio e as reações de fusão induzem uma ativação mais fraca das estruturas mecânicas. No entanto, serão necessárias temperaturas muito mais elevadas do que para o ciclo D-T. Além disso, se o deutério é muito abundante sobre a terra, do 3He só existem vestígios e será necessário extraí-lo do solo lunar.
O lago Léman poderia fornecer Deutério para cobrir
as necessidades de energia primária durante vários milhares
de anos.
Fusão não termonuclear
A fusão é também possível à temperatura ambiente se os eletrons nas moléculas de deutério e trítio forem substituídos por partículas negativas bastante mais pesadas. Uma dessas partículas é o muon negativo, que é instável, com uma massa igual a 207 vezes a do eletron e um tempo de vida de 2.2 µs. A física da fusão catalisada pelo muon está bem estabelecida, mas os resultados obtidos não permitem esperar um balanço de energia positivo, atendendo às seguintes razões: