| Efeitos quânticos se tornam visíveis
Quando ainda era um jovem estudante, em 1879, Edwin H. Hall descobriu
um fenômeno inesperado. Ele observou que se uma placa fina de ouro
for colocada em um campo magnético perpendicular à sua superfície,
uma corrente elétrica fluindo ao longo da placa pode causar uma
diferença de potencial em uma direção perpendicular
tanto ao campo magnético quanto à corrente (veja a figura
1). Este fenômeno, chamado de efeito Hall , acontece
porque as partículas eletricamente carregadas (neste caso, elétrons)
movendo-se em um campo magnético são influenciadas por uma
força e defletidas lateralmente. O efeito Hall pode ser usado para
determinar a densidade dos portadores de carga (elétrons, negativos;
ou buracos, positivos) em condutores e semicondutores. Este efeito se tornou
uma ferramenta útil em laboratórios de física em todo
o planeta.
Fig. 1. Uma voltagem V dá origem a uma corrente I na direção positiva de x. A resitência ôhmica é V / I. Um campo magnético na direção positiva z deflete os portadores de carga positiva na direção negativa de y. isto gera um potencial de Hall ( VH ) e uma resitência de Hall (VH / I ) na direção de y. Hall realizou suas experiências na temperatura ambiente com campos magnéticos moderados, de menos de um tesla (T). No final dos anos 70 pesquisadores usaram temperaturas extremamente baixas (apenas alguns poucos graus do zero absoluto, ou seja, próximo a -272°C) e campos magnéticos muito potentes (máx. aprox. 30 T). Eles estudaram o efeito Hall num tipo de desenho de semicondutor usado na indústria eletrônica para a confecção de transistores de pouco ruído. O material contém elétrons que, embora estejam aprisionados perto da superfície interna, separando duas partes distintas do material, são altamente móveis ao longo da superfície. Nesta camada, a baixas temperturas, os elétrons podem ser usados para se moverem como se estivessem em uma superfície plana, ou seja, em duas dimensões apenas. Esta limitação geométrica leva a efeitos inesperados. Um deles é que o efeito Hall muda de caráter. Isto pode ser visto mais implesmente quando se mede como a resitência de Hall varia com o comprimento do campo magnético aplicado. Em 1980 o físico alemão Klaus von Klitzing descobriu em uma experiência similar que a resitência de Hall não varia de forma linear, mas "em saltos", com a intensidade do campo magnético. (veja figura 2). Os passos ocrorrem em valores da resitência que não dependem das propriedades do material, mas são dadas por uma combinaçãode constantes físicas fundamentais divididas por um inteiro.Dizemos que a resitência é quantizada.Nos valores quantizados da resistência Hall, a resistência ôhmica normal desaparece e o material se torna em uma espécie de supercondutor.
Fig. 2. A resitência de Hall varia em saltos com a mudança do campo magnético B. A altura dos saltos é dada pela constante física h/e2 ( aprox. 25 kilo-ohm ) dividida por um inteiro i. A figura mostra saltos para i =2,3,4,5,6,8 e 10. O efeito deu origem a um novo padrão de reistência internacional. Desde 1990 isto é representado pela unidade de 1 klitzing, definida como a frequência de Hall no quarto salto ( h/4e2 ). A curva com picos representa a resitência ôhmica, que desaparece em cada salto. Por esta descoberta, chamada de efeito Hall quântico inteiro, von Klitzing recebeu o prêmio Nobel em 1985. O efeito pode ser entendido se se aceita as leis da mecânica quântica para o comportamento de elétrons individuais em campos magnéticos intensos. Em termos simples, os elétrons se movem somente em certos caminos circulares, cujos tamanhos básicos são determinados pelo campo magnético aplicado. Os vários saltos são associados à quantidade de pequenos caminhos que são totalmente ocupados por elétrons. Horst L. Störmer e Daniel C. Tsui fizeram estudos refinados do
efeito Hall quântico, usando entre outras coisas temperaturas mais
baixas e campos magnéticos mais fortes. Para grande surpresa, eles
descobriram um novo salto na resistência Hall que era 3 vezes maior
do que a maior de Klitzing.
Um novo tipo de fluido quântico Um ano após a descoberta do efeito Hall quântico fracionário, Robert B. Laughlin apresentou uma explicação teórica para o efeito. De acordo com a sua teoria, a baixa temperatura e o campo magnético forte fazem com que o gás de elétrons se condense e forme um novo tipo de fluido quântico. Como elétrons são muito relutantes em se condensar (eles são férmions), eles primeiro, de certo modo, se combinam com o "fluxo quântico" do campo magnético. Particularmente para os primeiros saltos descobertos por Störmer and Tsui, os elétrons capturam 3 fluxos de quanta, formando uma espécie de partícula composta, que não possue objeção à condensação (eles se transformam em bósons). Fluidos quânticos foram observados antes em hélio líquido a temperaturas muito baixas (prêmio Nobel de 1962 para Landau; 1978 para Kapitsa; 1996 para Lee, Osheroff e Richardson) e em supercondutores (prêmio Nobel de 1913 para Kamerlingh Onnes; 1972 para Bardeen, Cooper e Schrieffer; 1987 para Bednorz e Müller). Fluidos quânticos possuem certas propriedades em comum, por exemplo, superfluidez, mas também possuem diferenças importantes no comportamento. Alguns, como o fluido de Laughlin, consistem de partículas compostas. Além de sua superfluidez, que explica o desaprecimento da resitência
ôhmica nos saltos da resistência de Hall, o novo fluido quântico
proposto por Laughlin possui muitas propriedades incomuns. Uma das
propriedades mais notáveis é que se um elétron for
adicionado o fluido será afetado (excitado) e um número
de "quasipartículas" com cargas fracionárias são
criadas. Estas quasipartículas não são partículas
no sentido comum, mas um resultado da dança conjunta de elétrons
no fluido quântico. Laughlin foi o primeiro a demonstrar que as quasipartículas
tem precisamente a carga fracional correta para explicar os resultados
de Störmer e Tsui. Medidas subsequentes demonstraram mais e
mais saltos fracionais no efeito Hall (figura 3), e o fluido
quântico de Laughlin provou ser capaz de explicar todos os saltos
encontrados experimentalmente.
Fig. 3. A linha tracejada diagonal representa a resistência
clássica Hall e a diagonal em saltos representa os dados experimentais.
Os campos magnéticos que causam os saltos são indicados por
setas. Note particularmente o primeiro salto descoberto por Störmer
and Tsui (1/3) no maior valor do campo magnético e os saltos descobertos
anteriormente por von Klitzing (inteiros) com um campo magnético
mais fraco
O novo fluido quântico resiste enormemente à compressão,
e imagina-se ser incompressível. Isto ocorre porque ele reage à
compressão formando mais quasipartículas, que custam energia.
Demonstração direta da existência de quasipartículas quântico e de suas quasipartículas carregadas fracionalmente.Vários grupos de pesquisa conseguiram observar recentemente estas novas partículas diretamente. Isto aconteceu por exemplo em experiências onde muito pequenas variações na corrente foram relacionadas à quasipartículas individuais escoando no fluido através do circuito. Estas medidas são comparadas à distinção do som de uma pedra de granizo durante uma chuva de granizo e determinando a partir deste som se elas são apenas uma fração do seu tamanho normal. Elas só foram possíveis pelo desenvolvimento notável da microeletrônica desde que os prêmios Nobel de 1998 fizeram as suas contribuições pioneiras. As medidas podem ser vistas como uma prova conclusiva das suas descobertas.
Robert B. Laughlin
Professor Robert B. Laughlin
Horst L. Störmer
Professor Horst L. Störmer
Daniel C. Tsui
Professor Daniel C. Tsui
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